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Adolescência: a série que viralizou e o tema que ainda assusta pais, filhos e adultos esquecidos de si
De tempos em tempos, surge algum filme ou série que conquista a opinião pública e toma de assalto salas de cinema ou plataformas de streaming. E quando digo isso, falo de um intervalo curto: de um mês para o outro, no máximo de um ano para o outro. Nunca como no passado — época em que filmes como 9 e ½ Semanas de Amor ficavam em cartaz por um ano e meio. Era quando o boca a boca decidia o sucesso, endossando a próxima compra de ingresso.
A lógica do consumo mudou — e muito
Esse movimento de consumo acelerado não é exatamente uma surpresa. Afinal, vivemos em um tempo em que tudo precisa ser rápido, acessível e comentável. Por outro lado, a efemeridade também muda a forma como nos relacionamos com aquilo que assistimos. O impacto pode ser intenso, mas raramente duradouro. Ainda assim, algumas obras rompem essa regra.
Memória de quem viu tudo acontecer
Não digo isso com nostalgia. Sou jornalista especializado no mercado de entretenimento há mais de três décadas e vivi tudo isso na pele, cobrindo o setor. Hoje, o consumo de entretenimento está acelerado, principalmente no que diz respeito ao streaming. São títulos e mais títulos chegando às plataformas para atender uma diversidade absurda de gostos. Algo muito positivo, confesso, principalmente considerando que a TV aberta já não é mais aquela e a TV por assinatura parece estagnada. Assim como o circuito exibidor de cinema.
Uma curiosidade que cresce rápido
Nesse cenário, é essa agilidade do streaming que permite que uma minissérie como Adolescência surja de uma hora para outra e se torne popular. Faça o teste. Introduza o assunto “você já viu Adolescência?” na primeira oportunidade que tiver: grupo de WhatsApp, podóloga, frentista, não importa. Eu, por exemplo, troquei ideia sobre a série com uma segurança. A resposta dela foi: “Já disseram para mim que é boa. Vou ver no final de semana”.
Quando o sucesso gera desconfiança
Uma popularidade repentina como essa, para um cara que vive desse mercado como eu, sempre levanta suspeitas. Teria sido uma campanha muito bem feita pela Netflix? Ou a série é boa mesmo e viralizou?
Do técnico ao existencial
Para todos os efeitos, conferi Adolescência assim, em uma tacada só. São apenas quatro episódios, praticamente dois longas-metragens. Mas não vou aqui, no Era Sideral, ficar analisando a parte técnica da minissérie.
Primeiro, porque seria chover no molhado. As redes sociais já se encarregaram de decupar o estilo dela de usar um take só, sem cortes, etc. Segundo, porque estamos no Era Sideral e é mais apropriado destacar o que Adolescência pode potencialmente agregar à humanidade, para além do entretenimento básico.
Então, a seguir vou tentar resumir aquilo que mais mexeu comigo nessa série:
O que Adolescência revela sobre o mundo real dos adolescentes
- A minissérie abre portas incômodas, que vão muito além do que se vê na superfície. Entre uma discussão familiar, um jogo online e um silêncio atravessado por olhares, vão surgindo temas que raramente cabem na mesa do jantar. Mas estão todos lá.
A dor silenciada: saúde mental e automutilação
- A série mostra o sofrimento psíquico na adolescência como algo que não grita — sangra. Cortes, insônia, apatia. Os personagens não pedem ajuda com palavras. Pedem com o corpo. E raramente são ouvidos a tempo. A adolescência ali é atravessada por angústia, solidão e uma vontade difusa de desaparecer.
Violência como linguagem: bullying e humilhação pública
- O bullying ganhou upgrade. Não é mais sussurrado no corredor da escola. Agora é filmado, compartilhado e viralizado. O medo de virar piada molda comportamentos. Meninos e meninas criam personagens para não virarem alvo. Mesmo assim, ninguém está a salvo.
Pais exaustos, confusos ou simplesmente ausentes
- A figura dos pais é inquietante. Não porque sejam vilões, mas porque estão perdidos. Tentam acertar, mas não sabem por onde começar. Alguns só querem paz. Outros já desistiram. A verdade é que muitos adultos não sabem mais como conversar com seus filhos. E quando tentam, já é tarde.
Masculinidade tóxica e a educação para o silenciamento
- Meninos crescem aprendendo que não podem demonstrar fragilidade. O choro vira motivo de vergonha. A empatia é vista como fraqueza. Por isso, eles se armam emocionalmente. Vão se tornando cascas. Mas por dentro, continuam sem saber o que fazer com a dor.
Sexo sem afeto: hipersexualização e pornografia como modelo
- A série retrata o sexo como um campo de validação. Fazer sexo é ser aceito. Não fazer é ser invisível. O problema é que essas experiências são mediadas por pornografia e pressão social. A afetividade desaparece. O corpo vira moeda de troca. A conexão real, portanto, se perde.
Red Pill, incel, bean: o vocabulário da exclusão
- A série também encosta em discursos digitais de masculinidade ressentida. O incel (celibatário involuntário), o red pill (“acorde para a realidade”), o bean (o moleque comum, invisível). Termos que saem de fóruns e viram identidades. Jovens se definem pela rejeição, pela raiva, pela solidão disfarçada de indiferença.
Quando tudo está exposto, mas nada se revela
- A adolescência retratada na série é vigiada. Por pais, por colegas, por si mesmos. A câmera está em toda parte. O celular virou espelho e vitrine. No entanto, mesmo com tudo exposto, pouca coisa é realmente dita. O silêncio segue sendo o idioma principal.
Adolescência, a série, tem um mérito raro: ela não julga. Não oferece solução. Mas escancara. E talvez isso seja o primeiro passo para a gente começar a escutar melhor. Antes que seja tarde de novo.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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