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Blue Sky Mine: música do Midnight Oil permanece atual, combativa e dançante
Eu ando tão concentrado escrevendo os mais diferentes tipos de texto aqui para o Era, que vire e mexe tento quebrar um pouco dessa retidão ouvindo música. Sempre dentro daquele estilo que compartilhei aqui com vocês: ou que me faça mexer os pés, ou que me arrepie.
Foi em uma dessas situações que o Midnight Oil retornou à minha mente, em particular com o hit Blue Sky Mine, de 1990. Então, fui fazer a lição de casa para tentar compartilhar não apenas a emoção com vocês, mas também algum informação.
Por exemplo, lembrei de ter assistido a um documentário sobre o Gilberto Gil e vê-lo se encontrando com o exótico Peter Garrett, o vocalista do Midnight Oil, que com quase dois metros de altura, cativava a atenção de todos com movimentos únicos. Como pode ser visto no clipe mais abaixo.
Gilberto Gil e Peter Garrett
O encontro foi em 2005 e Gil atuava como Ministro da Cultura. Garrett estava fastado temporariamente do Midnight Oil e era um conhecido ativista ambiental e parlamentar na Austrália, eleito pelo Partido Trabalhista Australiano. Eles até falaram de música, mas a pauta era o ativismo político e ambiental. Justamente a base de atuação do Midnight Oil, que encerrou atividades em 2022. Mas marcando o cenário musical com uma sonoridade única e letras que falam de questões como os direitos dos povos indígenas australianos, proteção ambiental, antinuclearismo e justiça social. Mais atual, impossível!
Por isso, é possível afirmar que o Midnight Oil nunca foi apenas uma banda. Desde os anos 70, eles transformaram cada acorde em manifesto, cada verso em um chamado à consciência. Enquanto muitos grupos buscavam fama, eles escolheram a luta, a causa, o ativismo. Essa é a essência do Midnight Oil: música potente, mas sempre com propósito.
A gênese do som rebelde
Formada em 1972 em Sydney, inicialmente como Farm, a banda adotou o nome Midnight Oil em 1976, inspirada na canção Midnight Oil, de Jimi Hendrix, e na expressão “burning the midnight oil”, que significa trabalhar até tarde da noite. A partir daí, criaram uma identidade sonora inconfundível: guitarras cortantes, bateria visceral e a voz de Peter Garrett, que mais parecia um trovão em meio à calmaria. Entre punk, new wave e rock alternativo, encontraram sua fórmula e mostraram ao mundo que a Austrália tinha muito mais a oferecer do que praias e cangurus.
Por todo esse histórico, é totalmente compreensível encontrar sucessos como Truganini e The Dead Heart dentre as canções mais tocadas na relativamente curta carreira da banda. Recomendo fortemente que vocês ouçam esses e outros hits deles e digam depois se os pés de vocês se mexeram…
Quando a música encontra a militância
O Midnight Oil entendeu cedo que a música é uma arma. Em pleno auge dos anos 80, lançaram Diesel and Dust, um álbum que mudou tudo. Beds Are Burning virou hino internacional e colocou no centro do debate global a luta pelos direitos dos povos aborígenes australianos. Não era apenas um hit; era uma denúncia, um clamor, uma exigência de justiça.
A banda sempre soube onde estava e o que queria. Não hesitaram em tocar na frente da sede da Exxon, em Nova York, por exemplo, para protestar contra o desastre do Exxon Valdez.
A música Blue Sky Mine, em especial, fala sobre a tragédia real dos trabalhadores da mina de amianto da cidade de Wittenoom, na Austrália Ocidental. Muitos mineiros e suas famílias morreram de doenças relacionadas à exposição ao amianto, enquanto as empresas responsáveis fugiam de sua responsabilidade. A expressão “blue sky” (céu azul) faz referência irônica à beleza natural do local, contrastando com o ambiente tóxico e mortal da mineração.
O videoclipe de Blue Sky Mine tem imagens fortes e belas, e a presença expressiva de Peter Garrett reforçou ainda mais a mensagem da música. E aqui uma curiosidade. Não encontrei nenhuma informação confirmando que Garrett toca uma gaita no clipe. O som me parece bem claro e os movimentos que ele faz também. Fica o desafio para o ouvido de vocês.
Legado que ultrapassa gerações
Mesmo após décadas, Midnight Oil continua tão relevante quanto sempre foi. Discos como 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 ou Blue Sky Mining seguem sendo referências não só musicais, mas também políticas. A pausa em 2002 parecia o fim, mas eles voltaram com tudo em 2017, mostrando que a chama nunca apagou. The Great Circle Tour levou essa energia renovada para o mundo, e em 2020 lançaram The Makarrata Project, reafirmando o apoio às comunidades indígenas australianas.
Porque, em um mundo onde tanta música soa vazia, eles provaram que é possível unir arte e ação. Suas canções seguem sendo trilha sonora de quem não aceita injustiça calado. Midnight Oil não é só sobre Austrália, aborígenes ou petróleo. É sobre qualquer um que acredita que a música pode e deve mudar o mundo. Eles mostraram que a rebeldia não é uma pose, mas uma postura ética diante da vida.
FAQ sobre Blue Sky Mine e o Midnight Oil
Quando nasceu a banda Midnight Oil?
Em 1972, em Sydney, na Austrália.
Qual a canção mais conhecida da banda?
Beds Are Burning, parte do álbum Diesel and Dust.
Peter Garrett virou político?
Sim, foi ministro do Meio Ambiente e do Patrimônio da Austrália.
Midnight Oil ainda está na ativa?
Sim, retomaram as atividades em 2022 e seguem lançando novos trabalhos.
Quais causas marcaram a trajetória da banda?
Direitos indígenas, proteção ambiental e justiça social.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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