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Apocalipse nos Trópicos: Petra Costa encara Malafaia e a fé politizada no Brasil
Em Apocalipse nos Trópicos (2024), a cineasta Petra Costa volta a provocar debate — algo que já se tornou quase uma assinatura de sua obra. Após o polêmico Democracia em Vertigem (2019), indicado ao Oscar e tão amado quanto criticado, Petra agora se debruça sobre outro tema espinhoso: o avanço da influência evangélica na política brasileira.
O novo documentário, recém-lançado na Netflix, examina a crescente presença dos evangélicos no poder, apoiando e elegendo políticos, e escancara os efeitos dessa aliança sobre a já frágil laicidade do Estado. A provocação, claro, está dada: num país onde os evangélicos aumentaram significativamente em número — segundo o último Censo do IBGE — e ocupam cadeiras nas mais diversas esferas legislativas, Petra enfia o dedo num vespeiro sem pedir licença.
Se a Igreja Católica precisou de séculos para fincar raízes profundas na cultura ocidental, os evangélicos conseguiram em poucas décadas fazer uma reviravolta religiosa e política no Brasil. Comparar esse crescimento a um 7 a 1 contra o catolicismo talvez até subestime o placar.
Afinal, é laico ou não é?
Mas o problema não está na fé — que cada um tenha a sua. O incômodo começa quando pastores viram cabos eleitorais, e políticos, mensageiros divinos. Quando um presidente diz abertamente que o Brasil “não é um país laico”, não se trata de retórica religiosa, mas de um flerte perigoso com o autoritarismo. Para quem diz jogar dentro das “quatro linhas da Constituição”, é no mínimo um drible desonesto.
É esse pano de fundo que Petra Costa examina com rigor em Apocalipse nos Trópicos. Com foco especial na figura do pastor Silas Malafaia, o documentário revisita sua trajetória desde o apoio a Lula em 2002 até o papel central que ele assumiu no bolsonarismo. Há imagens fortes, discursos inflamados e bastidores ainda mais reveladores.
Petra recua no tempo e cruza a ascensão de Malafaia com a retórica de Bill Graham, pastor norte-americano que já nos anos 1950 mobilizava multidões contra o “perigo marxista”. A semelhança entre os discursos — embora separados por décadas e hemisférios — é no mínimo inquietante.
Terrivelmente evangélico
Malafaia surge como um personagem à parte: eloquente no púlpito, calculista fora dele. É nos bastidores, porém, que seu poder real aparece — cobrando promessas de Bolsonaro, como a indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” ao STF, e fazendo lembrar que, no jogo político, Deus às vezes entra como avalista de barganhas bem humanas.
Há momentos em que o próprio pastor se irrita com Bolsonaro, chegando a acusá-lo de covardia por fugir para os Estados Unidos após a derrota nas urnas. É o Malafaia menos carismático e mais estrategista, menos pastor e mais operador político.
Petra, com seu estilo característico, mistura imagens de arquivo, entrevistas e uma narração contida, mas crítica. A montagem é nervosa, e o ritmo lembra mais um alerta do que uma contemplação histórica. Afinal, como a própria diretora parece sugerir, talvez esperar os “20 anos” da sabedoria histórica seja luxo demais no Brasil atual.
O nome de Deus em vão
Em suma, Apocalipse nos Trópicos não é um documentário confortável. Tampouco quer ser. Ele provoca, irrita, instiga — e esse é justamente seu valor. Se você está em busca de leveza, talvez seja melhor recorrer a um dorama sul-coreano. A Netflix está cheia deles.
Agora, se deseja pensar o país além do voto, refletir sobre quem tem falado em nome de Deus — e com que propósito —, vale dar o play. Não vai mudar o Brasil. Mas pode mudar a maneira como você entende as forças que tentam moldá-lo.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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