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Berimbaucomtudo: projeto de Henrique Azul foca no ensino das possibilidades sonoras do berimbau em contextos futuristas
Henrique Azul, nascido no Rio de Janeiro, construiu uma trajetória singular dedicada ao berimbau ao longo de mais de 34 anos. Reconhecido internacionalmente, desenvolveu uma linguagem sonora tão particular que pode ser identificada apenas pela escuta. Não se trata apenas de técnica, mas de identidade. Inspirado pelo legado musical do bisavô flautista, seu primeiro contato com o berimbau aconteceu aos 10 anos, dentro da capoeira. Desde então, o instrumento deixou de ser ferramenta e passou a ser companhia.
Aos 16 anos, Henrique já estagiava musicando aulas, experiência que lapidou seu domínio do tempo musical e moldou um estilo próprio. Ele faz questão de lembrar que, antes de qualquer método formal, veio a rua. Foi ali, batucando com amigos, improvisando blocos de carnaval puxados por latas e participando de rodas informais, que aprendeu a versatilidade que hoje define sua música. A rua, como ele costuma dizer, foi sua grande escola. Desse caldo cultural nasceu o que mais tarde seria chamado de estilo Berimbaucomtudo.
O projeto Berimbaucomtudo surge como extensão natural dessa vivência. Idealizado por Henrique Azul, o projeto propõe explorar as possibilidades sonoras do berimbau para além da roda de capoeira, sem romper com ela. Ao contrário, parte da tradição para projetar o instrumento em contextos futuristas, dialogando com produções digitais, improvisações complexas e fusões ousadas. O objetivo é claro: romper preconceitos e reposicionar o berimbau como uma percussão brasileira plenamente versátil, capaz de ocupar qualquer ambiente musical.
Conhecendo o berimbau
O berimbau é um arco musical de origem africana formado por uma verga de madeira flexível, geralmente biriba, um arame de aço e uma cabaça que funciona como caixa de ressonância. Para tocá-lo, utiliza-se uma baqueta, um dobrão ou pedra para modulação do som e um caxixi que acompanha o ritmo. Essa combinação cria uma interação complexa entre corda e percussão.
A vibração do arame, amplificada pela cabaça e modulada pelo dobrão, somada ao pulso do caxixi, produz um som hipnótico e pulsante. É uma música que não se limita ao ouvido: reverbera no corpo, organiza o ritmo interno e cria uma experiência quase meditativa, capaz de fazer o coração acompanhar sua cadência.
Interestelar
Lançada em julho de 2025 pelo projeto Berimbaucomtudo, a faixa Interestelar cresceu rapidamente em visualizações nas plataformas digitais. A música apresenta uma fusão afrofuturista de hip-hop com ritmos ancestrais, criando uma paisagem sonora que dialoga com passado e futuro ao mesmo tempo. O beat é assinado por Dudu Capoeira, enquanto a produção leva a marca direta de Henrique Azul.
O resultado é um som de alta frequência, que eleva o ânimo e propõe uma escuta atenta. Interestelar não busca apenas entreter, mas provocar sensação de expansão, como se o berimbau fosse lançado ao espaço sem perder suas raízes.
Conexão de frequências
Ao ouvir Interestelar pela primeira vez, é difícil não estabelecer pontes com marcos do electro-funk. A sensação remete à primeira audição de Renegades of Funk, de Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force. Mesmo com batidas por minuto diferentes, ambas compartilham uma energia rebelde, futurista e pioneira. Existe ali um mesmo espírito cósmico, capaz de atravessar décadas misturando groove dançante, ancestralidade e visão de futuro.
Essa conexão revela que o trabalho de Henrique Azul não está isolado. Ele dialoga com uma linhagem musical que sempre enxergou o som como ferramenta de consciência, identidade e transformação.
FAQ sobre Henrique Azul e o projeto Berimbaucomtudo
Quem é Henrique Azul?
Henrique Azul é um berimbalista carioca com mais de 34 anos de trajetória, reconhecido por criar uma linguagem própria no instrumento. Sua formação passa pela capoeira, pela rua, pelo samba e pela música afro-brasileira, resultando em um estilo autoral identificado como Berimbaucomtudo.
O que é o projeto Berimbaucomtudo?
Berimbaucomtudo é um projeto artístico e pedagógico que expande o uso do berimbau para além da capoeira. Ele propõe fusões com hip-hop, música eletrônica e produções digitais, mantendo o vínculo com a tradição e explorando novas possibilidades sonoras.
É preciso praticar capoeira para aprender a tocar berimbau?
Não. Qualquer pessoa pode aprender a tocar berimbau sem praticar capoeira. O instrumento funciona como ferramenta musical versátil e acessível, trazendo benefícios rítmicos, criativos e de bem-estar.
O que torna a música Interestelar diferente?
Interestelar se destaca por unir o berimbau ancestral a uma estética afrofuturista. Com beat de Dudu Capoeira e produção de Henrique Azul, a faixa cria uma atmosfera cósmica que dialoga com o hip-hop, o electro-funk e a espiritualidade sonora.
Onde é possível aprender com Henrique Azul?
Henrique Azul oferece aulas abertas a todos os níveis pelo projeto Berimbaucomtudo. No formato presencial, as aulas acontecem às quartas-feiras, das 20h às 21h, na Fundição Progresso, na Lapa, Rio de Janeiro (RJ), além de conteúdos e informações disponíveis nas redes sociais do projeto (@berimbaucomtudo).
Ademir Andrade
Curador musical, arte educador e misturador de sons apaixonado por música e imerso na criação de novos beats mesclando sons e ideias.
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