O Agente Secreto: filme colocou o Brasil no topo do Oscar 2026

O Agente Secreto atinge marca histórica com 4 indicações ao Oscar 2026. Entenda o impacto político e a fúria da extrema-direita.
O Agente Secreto: filme colocou o Brasil no topo do Oscar 2026
Foto: Divulgação / Vitrine Filmes

O cinema brasileiro acaba de implodir a barreira do som em Hollywood. Com o anúncio oficial da Academia ontem (22/01), O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, cravou quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco.

O feito não apenas iguala o recorde de Cidade de Deus, mas estabelece uma nova ordem na cultura nacional, provando que o Brasil de 2026 não apenas produz estética, mas exporta o trauma de sua própria história como um produto de consumo global e refinado.

A anatomia de um triunfo histórico

A presença de Wagner Moura na categoria de Melhor Ator representa o ápice de um processo de maturação industrial. O “Capitão Nascimento” agora veste o terno de um professor de tecnologia espionado pelo aparato estatal em 1977. Moura entrega uma performance que a crítica internacional descreve como “contida e devastadora”. O filme já carregava o peso de dois Globos de Ouro vencidos há duas semanas (Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama), mas a indicação na categoria principal de Melhor Filme coloca a produção pernambucana no centro da geopolítica do entretenimento.

A importância desse fato transcende o tapete vermelho. O cinema brasileiro sobreviveu a anos de asfixia financeira para emergir com uma técnica impecável. O trabalho de Kleber Mendonça Filho – que já havia triunfado em Cannes com o prêmio de Melhor Diretor em 2025 – valida uma cinematografia que se recusa a ser apenas folclórica. O Recife dos anos 70, com seus tubarões simbólicos e vigilância paranoica, tornou-se universal porque fala sobre o medo, e o medo é a moeda corrente do século XXI.

O curto-circuito na ala da extrema-direita

Como era de se esperar, o sucesso estrondoso de O Agente Secreto não desceu suavemente pela garganta da extrema-direita brasileira. O filme toca na ferida aberta da Ditadura Militar, mas o faz sem os clichês do panfleto político tradicional. Ele utiliza a linguagem do thriller e do suspense, o que torna a mensagem muito mais difícil de ser ignorada ou rotulada simplesmente como “militância”.

As críticas desse setor focam em três pilares: a suposta “doutrinação ideológica” através do entretenimento, o uso de recursos públicos – que a militância digital insiste em questionar, ignorando o retorno financeiro bilionário que o filme gerou ao Estado – e a figura de Wagner Moura. O ator, crítico ferrenho do bolsonarismo, tornou-se o alvo principal. A extrema-direita vê no prestígio internacional de Moura uma espécie de derrota diplomática. Houve tentativas de boicote nas redes sociais, mas o efeito foi o inverso: a curiosidade impulsionou o filme a ultrapassar a marca de 1,5 milhão de espectadores apenas no mercado interno antes mesmo das indicações de ontem.

O espelho de uma nação paranoica

A fúria conservadora contra o filme reside na sua capacidade de mostrar que o aparato de repressão não acabou em 1985; ele apenas se digitalizou. O Agente Secreto sugere que a vigilância é um traço persistente da alma brasileira. Ao verem um agente do Estado sendo retratado como uma peça em uma engrenagem burocrática e cruel, setores que flertam com o autoritarismo sentem o golpe. O filme não ataca indivíduos; ele expõe o sistema, e o sistema tem defensores barulhentos.

A indignação é o melhor marketing que o cinema de arte poderia desejar. O Brasil de 2026 assiste, entre o espanto e o orgulho, a uma obra que se recusa a ser esquecida. Se o Oscar vier em 15 de março, a estatueta será menos um prêmio e mais um atestado de óbito para quem tentou apagar a memória nacional.

FAQ sobre O Agente Secreto no Oscar 2026

Quais foram as 4 indicações exatas de O Agente Secreto?
O filme concorre nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco (categoria estreante na premiação).

Wagner Moura já ganhou algum prêmio importante por este papel?
Sim. Ele venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama e o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes em 2025.

O filme é baseado em uma história real?
Embora seja uma obra de ficção escrita por Kleber Mendonça Filho, o filme utiliza uma pesquisa histórica rigorosa sobre o aparato de vigilância no Recife de 1977, durante o governo Geisel.

Por que o filme incomoda tanto a extrema-direita?
O incômodo surge da representação realista da repressão militar e do posicionamento político progressista de seus realizadores, que confrontam as tentativas de revisão histórica do período.

Onde posso assistir ao filme atualmente?
Após uma carreira de sucesso nos cinemas iniciada em novembro de 2025, o filme está em cartaz em salas selecionadas e deve chegar às plataformas de streaming logo após a cerimônia do Oscar.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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