Sudestino: o termo que virou campo de batalha cultural

Entenda o conceito de sudestecentrismo e como a nova onda do cinema nacional desafia o domínio cultural do eixo Rio-São Paulo no Brasil.
Sudestino: o termo que virou campo de batalha cultural
Foto: Era Sideral / Direitos Reservados

O termo “sudestino” não é apenas uma coordenada no mapa; é o epicentro de uma miopia histórica que o Brasil de 2026 começa, finalmente, a operar com laser. É importante ressaltar que as palavras são ferramentas de poder, e o sudestino é o arquétipo de quem vive no umbigo do mundo, dessa forma, acreditando que o horizonte termina onde a Rodovia Presidente Dutra descansa.

A hegemonia do olhar sudestecêntrico

O sudestecentrismo opera como uma lente que distorce a realidade nacional. Durante décadas, o eixo Rio-São Paulo sequestrou a definição do que é “ser brasileiro”, exportando seu sotaque, seus problemas de trânsito e sua estética urbana como se fossem o padrão ouro da existência.

Quem nasce nessa bolha desenvolve uma espécie de surdez para as complexidades que pulsam fora do seu meridiano. O sudestino médio enxerga o resto do país como um anexo folclórico ou uma reserva de mão de obra, ignorando, assim, que a inteligência e a vanguarda muitas vezes viajam em sentido contrário ao fluxo do capital.

O sudestino diante do espelho da crítica

A reação da ala conservadora do Sudeste ao filme O Agente Secreto ilustra perfeitamente essa tensão. Ao verem o Recife de 1977 ser retratado com uma sofisticação técnica que desbanca as produções paulistas, o sudestino tradicional sente o desconforto da descentralização.

Ele está acostumado a ser o protagonista da história, o herói da narrativa econômica e o juiz da moral pública. Quando a câmera de Kleber Mendonça Filho foca na repressão militar em Pernambuco, ela desloca o eixo da dor e da memória, forçando o Sudeste a aceitar que não é o único guardião dos traumas nacionais.

A desconstrução de um privilégio geográfico

O termo “sudestino” passou a ser usado como um marcador de distanciamento cético. Ser chamado de sudestino hoje, em fóruns de debate intelectual, carrega uma ironia fina: aponta para alguém que detém o privilégio da infraestrutura, mas padece de uma pobreza de repertório sobre a vastidão territorial que o sustenta.

O Brasil de 2026 não tolera mais a ideia de que o país é um satélite girando em torno da Avenida Paulista. A espiritualidade moderna e a ciência política convergem aqui: a evolução exige o fim da centralidade egoica.

Por isso, o ceticismo é a cura para a arrogância regional. O sudestino precisa aprender que seu “sotaque neutro” é apenas uma das muitas frequências de rádio de um continente chamado Brasil. O sucesso de obras nordestinas no Oscar é o lembrete necessário de que o talento não precisa de passaporte paulistano para validar sua existência perante o universo.

FAQ sobre o termo sudestino

O termo sudestino é pejorativo?
Depende do contexto. Frequentemente, ele é usado em debates sociopolíticos para criticar o “sudestecentrismo” – a tendência de privilegiar a visão e os interesses da região Sudeste em detrimento do resto do Brasil. No entanto, é também um gentílico técnico.

Qual a diferença entre sudestinocentrismo e regionalismo?
O regionalismo é a celebração das características de uma região. O sudestecentrismo é a imposição das características do Sudeste como se fossem a norma nacional, desse modo, invisibilizando as outras regiões.

Por que o debate sobre o sudestino cresceu em 2026?
O crescimento deve-se à descentralização da produção cultural e à força das redes sociais, que permitem que vozes do Nordeste, Norte e Centro-Oeste questionem a hegemonia narrativa que antes era controlada pelas emissoras de TV sediadas no Rio e em São Paulo.

Como o cinema reflete essa questão?
Filmes como O Agente Secreto e Bacurau são fundamentais, pois deslocam o eixo da produção cinematográfica de “elite” para fora do Sudeste, provando que é possível atingir o ápice técnico e artístico (como o Oscar) mantendo uma identidade regional forte.

Existe um sotaque sudestino?
Sim, embora muitos sudestinos acreditem ter um “sotaque neutro”. As variações paulistanas, cariocas, mineiras e capixabas são tão marcantes quanto as nordestinas, mas foram normalizadas pela mídia tradicional como o padrão da língua falada no Brasil.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

VER PERFIL

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Deixe um comentário

Veja Também