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A imagem que falta: o eco insuportável de A Voz de Hind Rajab
O cinema contemporâneo frequentemente se perde no espetáculo visual. Mas o que a cineasta Kaouther Ben Hania (As Filhas de Olfa) faz em A Voz de Hind Rajab é uma subversão dessa lógica: ela nos obriga a enxergar através do som. O longa, que reconstrói o martírio da pequena Hind, de seis anos, em Gaza, não é apenas um filme; é um manifesto contra a invisibilidade das estatísticas.
O som como prova do crime
A grande ousadia de Ben Hania reside no uso das gravações reais das chamadas de emergência. Ao trazer esses áudios para a sala de cinema, portanto, a diretora transforma o espectador em uma testemunha involuntária. Como a própria cineasta revelou em conversas com a imprensa, o acesso a esse material foi o que transformou o projeto em uma missão “quase sagrada”.
A tela, em muitos momentos, é preenchida por ondas sonoras que tornam o desespero de Hind algo físico. Além disso, não há artifícios de trilha sonora para manipular a emoção. O impacto vem da crueza do timbre infantil confrontando a burocracia da guerra. Ben Hania escolheu o caminho da “impotência compartilhada”, desse modo, confinando o público dentro do centro de chamadas do Crescente Vermelho (a instituição humanitária internacional equivalente à Cruz Vermelha), onde acompanhamos os voluntários Omar e Rana em sua luta desesperada contra o tempo e os tanques.
Entre o documento e a representação
O filme adota uma forma híbrida que mistura encenação e realidade. Em momentos cruciais, os atores interrompem a performance para simplesmente reagir às vozes reais da gravação. Essa escolha formal, segundo a diretora, foi estratégica para garantir que a obra fosse examinada como um registro de crimes de guerra, e não como um thriller de resgate convencional.
A participação da família de Hind, especialmente de sua mãe, Wesam, confere ao filme uma camada de legitimidade ética inabalável. Wesam entregou a memória da filha a Ben Hania pelo medo de que Hind fosse apenas “mais um corpo enterrado em Gaza”. Embora a dor impeça a mãe de assistir à obra na íntegra, sua presença em festivais internacionais como o de Doha, no Catar, reforça o papel do longa como uma ferramenta de justiça e luto coletivo.
O cinema como recusa do esquecimento
A Voz de Hind Rajab recusa a catarse. Ao mostrar o bombardeio da ambulância e o silêncio que se sucede, o filme nega ao público o conforto de um final esperançoso. A obra de Ben Hania é um exercício de meditação sobre a condição humana, desprovido de bandeiras ideológicas e focado na tragédia do povo.
É um cinema, portanto, que não pede permissão para incomodar. Pois ele existe para garantir que a voz de uma criança de seis anos ecoe muito além dos escombros, transformando, assim, a injustiça em uma consciência global impossível de ignorar. Está em cartaz. Ainda.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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