O Brasil e a distorção da verdade: mentiras políticas e a fé usada como arma de poder

O país está diante de uma cruzada político-religiosa que distorce a fé e destrói a verdade. Este artigo examina as engrenagens dessa manipulação.
O Brasil e a distorção da verdade: mentiras políticas e a fé usada como arma de poder
Foto: Era Sideral / Direitos Reservados

Desde 2018, a mentira se tornou método de governo. O que antes era exceção virou regra. Um estudo do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) mostrou que mais de 80% das fake news políticas nas eleições de 2022 foram disseminadas por redes bolsonaristas.

Essas mentiras não são inocentes. Visam desacreditar o sistema eleitoral, destruir adversários e criar um ambiente de paranoia controlada. O eleitor é transformado em militante de uma guerra imaginária, onde quem contesta é inimigo da nação.

Pesquisadores como Camila Rocha e Esther Solano apontam que essa estrutura funciona dentro de comunidades digitais fechadas, com forte apelo emocional e religioso, onde qualquer discordância é lida como traição. A verdade factual perde lugar para versões convenientes, moldadas por algoritmos.

O fenômeno não é isolado: estratégias semelhantes foram observadas no trumpismo nos EUA, no orbanismo na Hungria e no autoritarismo digital russo. Mas, no Brasil, essa fórmula assumiu uma identidade própria, fortemente religiosa e emocional.

A fé transformada em projeto de poder

No Brasil, a relação entre fé e política não é nova. Durante a Ditadura Militar, setores conservadores da Igreja apoiaram o regime. Nos anos 1980, grupos religiosos influenciaram a Constituinte. Mas o que vemos hoje é algo sem precedentes: uma fusão direta entre culto religioso e palanque eleitoral.

Segundo relatório do Instituto de Estudos da Religião (ISER), houve um aumento de 52% no uso de expressões religiosas por candidatos da nova direita. O Observatório Evangélico mostra como líderes de grandes igrejas usaram púlpitos para transformar o voto em “missão espiritual”.

Em uma live de 2022, um conhecido pastor declarou: “Quem votar contra o escolhido de Deus estará se aliando às forças do mal.”

Esse tipo de declaração ilustra a gravidade do sequestro da fé. O que está em jogo não é a religião — é o uso político da fé como blindagem moral para projetos autoritários.

E o mais perverso é que milhões de pessoas entregam sua fé com sinceridade. Quando líderes transformam essa entrega em capital político, o que se perde não é apenas a confiança — é a dignidade espiritual de um povo inteiro.

A engrenagem digital da radicalização

Nada disso se sustentaria sem a arquitetura digital que impulsiona a radicalização. A FGV-DAPP revelou que redes ligadas à extrema-direita operaram com bots, impulsionamento ilegal e coordenação de mensagens em vídeos virais. Plataformas como TikTok, Kwai e YouTube Shorts viraram trincheiras digitais onde a desinformação se espalha de forma rápida, emocional e visual.

A socióloga Sabrina Fernandes chama isso de “necropolítica algorítmica”: quanto mais violento o conteúdo, maior o alcance. A lógica das redes premia o ódio, marginaliza o diálogo e transforma seguidores em soldados. O resultado é uma população dividida entre “os escolhidos” e “os inimigos da verdade”.

Os efeitos devastadores no tecido democrático

Essa máquina de desinformação e fanatismo tem custos profundos. A confiança nas instituições despenca. O Datafolha revelou que 65% dos brasileiros não confiam mais em nenhuma liderança política ou religiosa. Isso não é acaso — é consequência direta da corrosão moral operada por figuras públicas que trocam responsabilidade por messianismo.

A violência simbólica se transforma em física. A Artigo 19 documentou mais que o dobro de ataques contra jornalistas, professores e ativistas entre 2019 e 2022. A liberdade de expressão virou alvo de uma guerra ideológica alimentada pelo ódio e pela mentira.

Como reconstruir a partir dos escombros

O caminho da reconstrução passa por coragem e consciência. Coragem para enfrentar os falsos profetas da política. Consciência para distinguir fé de manipulação.

A educação crítica deve ser prioridade. As escolas precisam formar leitores do mundo, não repetidores de doutrinas. O jornalismo independente deve ser defendido como pilar democrático. A ciência precisa voltar a pautar as decisões públicas.

E a fé — tão essencial ao povo brasileiro — deve ser libertada do cativeiro político. Ela deve voltar a inspirar amor, justiça, acolhimento. Não medo.

Não há mais tempo para neutralidade

O que está em jogo é o futuro da democracia brasileira. Ou escolhemos a verdade agora, ou seremos governados para sempre pela mentira que escolhemos ignorar. O Brasil não precisa de salvadores. Precisa de cidadãos conscientes.

FAQ — perguntas frequentes sobre o tema

1. Esse texto é contra a fé religiosa?

De forma alguma. O texto defende a fé como espaço legítimo de espiritualidade e critica apenas o uso político e manipulador que vem sendo feito por determinados grupos de poder.

2. A desinformação é exclusividade da extrema-direita?

A desinformação pode existir em todos os espectros. No entanto, estudos e relatórios mostram que a extrema-direita lidera em organização, volume e impacto da produção de fake news no Brasil.

3. Qual o problema de pastores e líderes religiosos apoiarem candidatos?

Apoio pessoal é legítimo. O problema surge quando instituições religiosas promovem campanhas sistemáticas, criminalizam adversários e confundem fé com obediência política.

4. Como combater essa manipulação?

Com educação crítica, regulação das plataformas digitais, fortalecimento da imprensa, incentivo à diversidade religiosa e laicidade efetiva do Estado.

5. Ainda dá tempo de mudar?

Sim. Mas isso exige ação coletiva, cidadania ativa, rejeição à mentira e um compromisso real com a democracia e com a liberdade de consciência.

Para aprofundar o tema:

  • A Máquina do Ódio, de Patrícia Campos Mello
  • Sintomas Mórbidos, de Sabrina Fernandes
  • O Ódio como Política, org. Esther Solano
  • Cidadania e Religião, de Cecília Mariz
  • Documentário O Dilema das Redes (Netflix)

Referências citadas:

Redação Sideral

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