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Unaids: relatório indica que combater a desigualdade pode evitar a próxima pandemia
O combate às desigualdades sociais não aparece mais como um tema lateral nas discussões sobre saúde global. Ele ocupa o centro do problema. Essa é a tese principal do novo relatório do Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias, lançado pelo Unaids, que aponta a desigualdade como um fator estrutural na origem, na duração e na letalidade das pandemias.
Segundo o documento, ignorar esse vínculo significa repetir um ciclo conhecido: sociedades desiguais adoecem mais, respondem pior às crises sanitárias e saem delas ainda mais fragmentadas. Foi assim com a Covid-19. Foi assim com a Aids. E, se nada mudar, tende a ser assim novamente.
Um ciclo que se retroalimenta
Baseado em dois anos de pesquisas e encontros internacionais, o relatório sustenta que desigualdades sociais e pandemias se alimentam mutuamente. Altos níveis de desigualdade favorecem o surgimento e a disseminação de surtos, enquanto respostas tardias ou frágeis ampliam mortes, impactos econômicos e rupturas sociais.
Ao mesmo tempo, cada pandemia aprofunda as desigualdades existentes. O risco de morte cresce em sociedades mais desiguais, enquanto a redução da pobreza aumenta a resiliência coletiva diante de crises sanitárias. O relatório relembra que esse padrão se repetiu em epidemias como Aids, Ebola, Influenza, Mpox e, de forma explícita, na Covid-19.
Desigualdade como escolha política
Para o conselho, a desigualdade não surge por acaso. Ela resulta de decisões políticas concretas. Monica Geingos, integrante do órgão e ex-primeira-dama da Namíbia, afirma que tratar a desigualdade como inevitável representa uma escolha perigosa, pois ameaça a saúde de todos.
Na visão do relatório, líderes políticos possuem meios para romper esse ciclo, desde que adotem políticas públicas já conhecidas e viáveis. A dificuldade não está na ausência de soluções, mas na falta de vontade política para aplicá-las de forma consistente.
O papel do Brasil e o contexto global
O lançamento da versão em português do relatório ocorreu durante a 57ª Reunião da Junta de Coordenação do Unaids, em um momento classificado como crítico para a resposta global à Aids. O Brasil preside atualmente o conselho da agência da ONU, justamente quando cortes abruptos na assistência internacional, como os realizados pelos Estados Unidos, pressionam o financiamento de ações de prevenção, tratamento e pesquisa.
Esse cenário preocupa ainda mais porque novas tecnologias, como injeções de longa duração para prevenção do HIV, começam a chegar aos sistemas de saúde, mas seguem inacessíveis para grande parte da população mundial devido a barreiras econômicas.
Vulnerabilidade global e atraso nas respostas
O estudo reforça um consenso já consolidado na literatura científica: quanto mais tempo se leva para enfrentar uma pandemia, maiores são seus danos sociais, econômicos e humanos. Doenças persistentes como Aids, malária e tuberculose continuam entre as maiores ameaças globais justamente porque prosperam em contextos de desigualdade e fragilidade institucional.
Além disso, pandemias enfraquecem a capacidade global de resposta futura, criando um ambiente ainda mais propício para novas crises sanitárias.
Caminhos para quebrar o padrão
O Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias afirma que o ciclo não é inevitável. Para isso, defende uma nova abordagem de segurança sanitária baseada em ações práticas, tanto no plano nacional quanto internacional.
O relatório propõe a reorganização do sistema financeiro global, com renegociação de dívidas e revisão de políticas de austeridade; investimentos em proteção social para enfrentar determinantes sociais das pandemias; fortalecimento da produção local e regional de medicamentos e vacinas; e a construção de redes de governança que ampliem confiança, equidade e eficiência na resposta a crises sanitárias.
No fundo, a mensagem é simples, embora desconfortável: enquanto a desigualdade permanecer como regra, as pandemias continuarão sendo consequência. Reportagem da Agência Brasil.
FAQ sobre desigualdade e pandemias
Por que a desigualdade aumenta o risco de pandemias?
Porque sociedades desiguais apresentam piores condições de moradia, trabalho e acesso à saúde, o que facilita a disseminação de doenças e dificulta respostas rápidas e eficazes.
As pandemias também aumentam a desigualdade?
Sim. Pandemias ampliam diferenças econômicas e sociais, elevam o risco de morte entre os mais vulneráveis e concentram renda, como ocorreu durante a Covid-19.
Qual foi o papel da Covid-19 nesse debate?
A Covid-19 evidenciou como países e populações desiguais sofreram mais mortes, atrasos no acesso a vacinas e impactos econômicos prolongados.
O relatório propõe soluções concretas?
Sim. Ele apresenta recomendações práticas, como fortalecimento de sistemas de saúde, proteção social, produção local de tecnologias médicas e cooperação internacional.
Reduzir desigualdades pode realmente prevenir pandemias?
Segundo o relatório, sim. Reduzir desigualdades aumenta a resiliência das sociedades, melhora a resposta a surtos e diminui a duração e a letalidade das pandemias.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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