Plásticos não recicláveis ampliam perdas e sobrecarga de catadores no Rio

Como embalagens plásticas sem valor de mercado geram perdas econômicas, sobrecarga de trabalho e expõem falhas da reciclagem no Rio.
Plásticos não recicláveis ampliam perdas e sobrecarga de catadores no Rio
Foto: Canva

A reciclagem no Rio de Janeiro carrega um paradoxo difícil de ignorar. Enquanto o discurso ambiental avança, a prática cotidiana empurra custos, tempo e desgaste para quem está na base do sistema. Um estudo recente mostra que plásticos não recicláveis drenam renda, ampliam a sobrecarga de trabalho e expõem uma falha estrutural do modelo brasileiro de gestão de resíduos.

A pesquisa, divulgada no fim de dezembro pela Agência Brasil, analisou cooperativas e associações de catadores fluminenses e revelou um dado incômodo. Em média, esses trabalhadores perdem quase 16 horas por mês separando plásticos que não geram retorno financeiro. Na prática, isso significa cerca de dois dias de trabalho desperdiçados todos os meses.

Quando reciclar não compensa

O levantamento avaliou 20 organizações de catadores, distribuídas entre a capital e regiões do interior do estado. Ao longo do estudo, os pesquisadores identificaram que aproximadamente 9,4% do tempo mensal de trabalho se perde na triagem de materiais sem valor de mercado. Ainda que o discurso público celebre a coleta seletiva, a realidade mostra um sistema que transfere ineficiência para quem menos pode absorvê-la.

Além disso, o perfil social da categoria reforça a dimensão do problema. A maioria dos catadores é formada por mulheres, em sua maior parte pessoas pardas ou pretas. Portanto, o impacto econômico da baixa reciclabilidade não se limita ao meio ambiente. Ele aprofunda desigualdades históricas e pressiona grupos já vulneráveis.

O prejuízo invisível das cooperativas

O estudo também estimou as perdas financeiras associadas aos rejeitos plásticos. As cooperativas analisadas deixam de arrecadar, mensalmente, valores que variam de pouco mais de mil reais a quase quatro mil reais. Esse dinheiro se perde porque muitos materiais, embora tecnicamente recicláveis, não encontram mercado, logística adequada ou valorização econômica.

Assim, o sistema penaliza quem faz o trabalho mais pesado. O catador assume o custo ambiental, social e operacional de um resíduo que nasce problemático na indústria, circula sem restrições no mercado e termina sem destino economicamente viável.

Rejeito não é detalhe técnico

Do total de resíduos analisados, os plásticos lideram a composição, seguidos por papel e uma categoria ampla de outros materiais. Dentro desse universo, os rejeitos merecem atenção especial. A legislação brasileira define rejeito como aquilo que não apresenta alternativa viável de reaproveitamento. Ainda assim, quase metade desses rejeitos é composta por plástico.

Entre as embalagens auditadas, predominam materiais da indústria alimentícia. Filmes plásticos do tipo Bopp, comuns em snacks e biscoitos, aparecem como o principal vilão. Para agravar o cenário, um terço das embalagens sequer traz identificação sobre reciclabilidade, o que dificulta qualquer tentativa de triagem eficiente.

Indústria no centro do problema

A pesquisa identificou quase duzentos grupos empresariais responsáveis pelas embalagens rejeitadas. Contudo, poucas empresas concentram uma parcela significativa do problema. Esse dado reforça um ponto recorrente no debate ambiental: a reciclagem falha quando o design do produto ignora o fim do ciclo.

Especialistas defendem mudanças estruturais, como investimento em design circular, substituição de materiais de baixa reciclabilidade e fortalecimento real da logística reversa. Sem isso, o sistema segue empurrando para os catadores a conta de um modelo que privilegia conveniência industrial e consumo rápido.

Entre a lei e a prática

Embora o Brasil disponha de uma legislação ambiental robusta, a distância entre norma e aplicação permanece evidente. O poder público possui instrumentos para fiscalizar, exigir mudanças e cobrar responsabilidades. No entanto, a execução falha mantém um ciclo no qual o serviço ambiental prestado pelos catadores segue subvalorizado.

No fim, a reciclagem brasileira expõe uma contradição central. O país celebra índices, campanhas e discursos, mas sustenta o sistema sobre trabalho precarizado. Sem enfrentar a raiz do problema, a coleta seletiva continuará funcionando como um paliativo, não como solução.

FAQ sobre plásticos não recicláveis e catadores

Por que plásticos não recicláveis geram prejuízo direto aos catadores?
Porque esses materiais exigem tempo de triagem, ocupam espaço e não geram renda. O catador trabalha para separar algo que não será vendido, reduzindo ganhos e produtividade.

Esses plásticos poderiam ser reciclados com mais investimento?
Em muitos casos, sim. No entanto, a falta de mercado, logística reversa eficiente e padronização industrial inviabiliza economicamente o processo, mesmo quando existe tecnologia disponível.

Qual é o papel da indústria nesse problema?
A indústria define materiais, formatos e combinações de embalagens. Quando ignora critérios de reciclabilidade, transfere o custo ambiental e social para o sistema público e para os catadores.

A legislação brasileira já não resolve essa questão?
A legislação prevê responsabilidade compartilhada e logística reversa. O problema está na aplicação frágil, na fiscalização insuficiente e na baixa exigência prática sobre fabricantes.

O que poderia melhorar a renda e as condições dos catadores?
Além de embalagens mais recicláveis, políticas de pagamento por serviço ambiental, fortalecimento das cooperativas e cumprimento efetivo da logística reversa poderiam gerar impacto imediato.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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