Covid-19: SUS tem legado estratégico após mobilização pela vacina

Corrida pela vacina contra a covid fortaleceu Bio-Manguinhos, salvou vidas e deixou infraestrutura, tecnologia e soberania para o SUS.
Covid-19: SUS tem legado estratégico após mobilização pela vacina
Foto: Canva

A mobilização para produzir a vacina contra a covid-19 no Brasil não foi um improviso heroico nem um salto no escuro científico. Ela representou, sobretudo, o uso extremo de uma estrutura que já existia, mas que raramente havia sido exigida em seu limite. O resultado foi duplo: controle da maior crise sanitária do século e um legado estrutural que hoje reposiciona o SUS em patamar estratégico.

Quando Margaret Keenan recebeu a primeira dose fora de ensaios clínicos, em dezembro de 2020, parte do debate público reagiu com desconfiança. No entanto, como explica Rosane Cuber, diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz, a velocidade não surgiu do nada. Ela nasceu do acúmulo científico e da capacidade industrial previamente instalada.

A rapidez que a ciência construiu ao longo de décadas

As vacinas usadas contra a covid, inclusive as de RNA mensageiro e vetor viral, não inauguraram tecnologias desconhecidas. Elas apenas adaptaram plataformas já testadas em outras doenças. Esse detalhe costuma desaparecer em discursos alarmistas, mas define o sucesso da resposta global à pandemia.

No Brasil, Bio-Manguinhos assumiu papel central nesse processo. A unidade da Fiocruz trouxe a vacina de Oxford/AstraZeneca e entregou cerca de 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações, em uma operação que exigiu reconfiguração completa da rotina institucional.

Mobilização total em tempo recorde

Desde março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia, o instituto direcionou seus esforços para o enfrentamento da covid-19. Bio-Manguinhos iniciou a produção de testes diagnósticos e, simultaneamente, passou a mapear vacinas em desenvolvimento com potencial de transferência de tecnologia.

As negociações com a Universidade de Oxford e a AstraZeneca começaram em agosto daquele ano e exigiram soluções jurídicas inéditas. O instituto precisou estruturar contratos para um produto ainda em desenvolvimento. Para isso, interrompeu outras atividades e concentrou equipes em um único objetivo.

Transferência de tecnologia e nacionalização da vacina

Em janeiro de 2021, dois milhões de doses prontas chegaram ao Brasil poucos dias após a autorização emergencial da Anvisa. Logo depois, Bio-Manguinhos passou a realizar envase, rotulagem e controle de qualidade em suas instalações, enquanto adaptava áreas produtivas para fabricar o ingrediente farmacêutico ativo em território nacional.

Em fevereiro de 2022, a população começou a receber uma vacina integralmente produzida no Brasil. Esse marco só ocorreu porque o instituto já acumulava experiência em transferências tecnológicas e dispunha de capacidade industrial consolidada.

O impacto direto sobre vidas e políticas públicas

O imunizante produzido pela Fiocruz foi o mais utilizado no país em 2021. Especialistas estimam que cerca de 300 mil vidas foram poupadas apenas naquele primeiro ano de vacinação. Esse dado, por si só, já justificaria o esforço.

No entanto, o legado ultrapassa o controle da pandemia. A estrutura fabril, o conhecimento técnico e a qualificação das equipes passaram a sustentar novos projetos estratégicos para o SUS.

Novas terapias e soberania sanitária

Uma das heranças mais concretas é a pesquisa de uma terapia avançada para atrofia muscular espinhal, doença rara cujo tratamento pode custar até R$ 7 milhões. A tecnologia usada é a mesma plataforma de vetor viral aplicada na vacina contra a covid.

Além disso, Bio-Manguinhos inicia testes em humanos de uma vacina de RNA mensageiro contra a covid, tecnologia já estudada anteriormente para o tratamento do câncer. Produzir esse imunizante no Brasil reduz custos e diminui a dependência internacional em futuras crises sanitárias.

Reconhecimento internacional e papel global

O desempenho durante a pandemia projetou Bio-Manguinhos no cenário internacional. O instituto passou a integrar o seleto grupo de centros globais escolhidos pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias e tornou-se hub regional da Organização Mundial da Saúde para produtos baseados em RNA mensageiro.

Esse reconhecimento reforça uma escolha estratégica: priorizar o interesse público em vez do lucro. Trata-se de uma lógica rara em um setor dominado por gigantes farmacêuticas, mas essencial para a sustentabilidade do SUS. Reportagem da Agência Brasil.

FAQ sobre o legado da vacina contra a covid no SUS

Por que a vacina contra a covid foi desenvolvida tão rapidamente?
A rapidez ocorreu porque as tecnologias usadas já existiam e contavam com décadas de pesquisa acumulada, apenas adaptadas ao novo vírus.

Qual foi o papel de Bio-Manguinhos na pandemia?
O instituto trouxe a vacina de Oxford/AstraZeneca, produziu doses no Brasil e estruturou a transferência completa de tecnologia.

A vacina produzida pela Fiocruz salvou vidas?
Sim. Estimativas indicam que cerca de 300 mil vidas foram poupadas no primeiro ano de vacinação no país.

Qual é o principal legado para o SUS?
O fortalecimento da infraestrutura industrial, da capacidade tecnológica e da soberania sanitária brasileira.

Esse legado pode ajudar em futuras pandemias?
Sim. Bio-Manguinhos agora integra redes globais de resposta rápida e pode produzir vacinas para o Brasil e a América Latina.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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