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Yanomami: três anos depois da emergência resposta do Estado expõe limites
Três anos após o reconhecimento oficial da emergência humanitária Yanomami, o Estado brasileiro segue tentando provar que aprendeu alguma coisa com o colapso que ele próprio permitiu. Governo federal e organismos da ONU programaram uma série de ações em Roraima para marcar a data, numa agenda que mistura cooperação internacional, avaliação interna e a persistente necessidade de reafirmar compromissos que jamais deveriam ter sido colocados em dúvida.
A programação ocorre em um contexto simbólico e político delicado. Ao mesmo tempo em que o país busca demonstrar capacidade de resposta, a crise Yanomami continua a funcionar como espelho incômodo das contradições entre discurso institucional, presença estatal e garantia real de direitos humanos.
Ações oficiais e cooperação internacional
Entre as iniciativas previstas, o governo federal e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados inauguram, nesta quinta-feira, um espaço do Acnur dentro do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana, em Boa Vista. O gesto carrega mais do que valor administrativo: simboliza a tentativa de institucionalizar uma resposta que, durante décadas, falhou de forma sistemática.
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a agenda busca fortalecer a cooperação entre o Estado brasileiro e organismos internacionais no atendimento e na proteção de povos indígenas, migrantes e refugiados. A crise humanitária na Venezuela, que pressiona diretamente Roraima, integra esse cenário ampliado de vulnerabilidade.
Reuniões, visitas e o ritual da avaliação
A programação inclui reuniões de avaliação, alinhamentos internos e encontros com integrantes do sistema de justiça. O discurso oficial reforça a ideia de atuação integrada e cooperação internacional, termos recorrentes sempre que o Estado precisa demonstrar que não atua sozinho — ou que não pode mais falhar isoladamente.
As atividades contam ainda com a participação da Organização Internacional para Migrações e do Fundo das Nações Unidas para a Infância. Estão previstas visitas a abrigos indígenas e não indígenas, incluindo estruturas da Operação Acolhida, tanto em Boa Vista quanto em Pacaraima. A presença física, nesse caso, funciona como gesto político e como tentativa de reaproximação com territórios historicamente negligenciados.
O marco da emergência Yanomami
O reconhecimento oficial da crise ocorreu em 20 de janeiro de 2023, quando o governo decretou emergência em saúde pública na Terra Indígena Yanomami. A decisão veio tarde, mas expôs uma realidade que povos indígenas denunciavam havia anos: invasões, destruição ambiental, doenças evitáveis e abandono institucional.
Desde então, o Ministério dos Direitos Humanos afirma manter presença contínua e integrada na região. A estratégia interministerial incluiu operações de segurança para retirada de invasores, ações de controle territorial, intensificação da fiscalização ambiental e apoio logístico às comunidades indígenas.
Números que tentam traduzir presença
De acordo com o ministério, mais de 9 mil operações ocorreram entre 2024 e 2026. O dado busca demonstrar esforço e continuidade, embora números, por si só, não consigam responder à pergunta central que ainda paira sobre a emergência Yanomami: por que foi preciso chegar a esse ponto para que o Estado agisse de forma coordenada?
Três anos depois, a emergência segue menos como episódio encerrado e mais como alerta permanente. O desafio deixou de ser apenas responder à crise. Ele agora envolve impedir que a próxima já esteja em curso. Reportagem da Agência Brasil.
FAQ sobre a emergência Yanomami
O que marcou o início da emergência humanitária Yanomami?
O governo federal decretou emergência em saúde pública em janeiro de 2023 após constatar desnutrição, doenças e impacto severo de invasões ilegais.
Por que a ONU participa das ações em Roraima?
A cooperação com organismos internacionais reforça a proteção de povos indígenas e amplia a capacidade de resposta em contextos humanitários complexos.
Quais organismos da ONU atuam nessa agenda?
Participam o Acnur, a Organização Internacional para Migrações e o Unicef, com foco em proteção, acolhimento e direitos humanos.
As operações de segurança resolveram a crise?
As operações reduziram invasões e ampliaram o controle territorial, mas não eliminam problemas estruturais históricos na região.
Qual é o principal desafio após três anos de emergência?
O desafio central consiste em garantir presença permanente do Estado e evitar que violações sistemáticas voltem a se repetir.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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