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Após sete anos, a justiça finalmente encosta na tragédia de Brumadinho
Sete anos depois do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, a Justiça brasileira finalmente se aproxima do ponto que sempre evitou: discutir responsabilidades criminais. O caso, que matou 272 pessoas em janeiro de 2019, entra agora na fase de audiências que pode levar 15 réus ao banco dos acusados. Não se trata apenas de um processo judicial tardio, mas de um teste direto à capacidade do Estado de enfrentar crimes corporativos sem perder o fôlego no meio do caminho.
O avanço ocorre após 2.557 dias de espera, um intervalo longo o suficiente para transformar indignação coletiva em cansaço social. Ainda assim, o processo que começa na 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte reabre uma pergunta incômoda: por que tragédias dessa magnitude parecem exigir quase uma década para chegar à porta do Judiciário?
O dia em que a lama interrompeu vidas comuns
Na sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, Nayara Porto preparava um pudim em casa, em Brumadinho. O doce era simples, doméstico, planejado para o fim de semana. O marido, Everton Lopes Ferreira, trabalhava no almoxarifado da Mina Córrego do Feijão. A rotina seguia intacta até que a palavra “barragem” atravessou a conversa da vizinha e rompeu qualquer normalidade possível.
A notícia chegou de forma fragmentada, quase absurda. O telefone não chamava. As mensagens não entregavam. Um colega do marido conseguiu escapar da lama e resumiu o cenário em poucas palavras: o local de trabalho havia simplesmente deixado de existir. A tragédia se materializou ali, no silêncio do telefone e na ausência definitiva.
Um crime sem culpados por mais de dois mil dias
O rompimento ocorreu por volta das 12h30 e matou 272 pessoas. Desde então, nenhuma responsabilização criminal havia avançado de forma concreta. A Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos classifica o episódio como tragédia-crime, uma definição que desloca o foco do acidente inevitável para a negligência previsível.
Agora, após sete anos completos, a Justiça abre espaço para que 15 pessoas respondam criminalmente. Onze integravam a estrutura de comando da Vale, entre ex-diretores, gerentes e engenheiros. Outras quatro pertencem à TÜV SÜD, empresa alemã contratada para atestar a estabilidade da barragem.
A engrenagem que se repete no setor de mineração
Para a jornalista Cristina Serra, autora do livro Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil, Brumadinho não representa um ponto fora da curva. O caso dialoga diretamente com Mariana, em 2015, e com o afundamento do solo em Maceió, provocado pela extração de sal-gema.
Nos três episódios, grandes empresas de mineração operaram sob uma lógica de risco calculado, enquanto o sistema de fiscalização permaneceu distante do território real. Até hoje, nenhum responsável sofreu punição criminal efetiva.
Cristina Serra aponta que essas companhias tratam a segurança como custo ajustável. Ao mesmo tempo, órgãos públicos se limitam à análise de documentos enviados pelas próprias empresas, sem inspeções presenciais consistentes. O resultado é um modelo de controle que funciona melhor no papel do que no chão onde a lama corre.
Fiscalização burocrática e ausência do estado
Segundo a jornalista, a fiscalização ambiental e os processos de licenciamento se transformaram em rituais burocráticos. O Estado aceita relatórios técnicos como verdades definitivas, mesmo quando a realidade demonstra o contrário. Essa combinação de confiança cega e ausência física cria o ambiente ideal para desastres anunciados.
O problema, portanto, não reside apenas nas empresas, mas também na fragilidade estrutural de um sistema que terceiriza a própria vigilância.
O discurso das empresas após a lama
Procurada, a Vale informou que não comenta processos em tramitação judicial. A empresa destacou, no entanto, ações de reparação em Brumadinho e afirmou ter executado economicamente 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral até dezembro de 2025. Segundo a mineradora, os investimentos incluem recuperação socioambiental, garantia de abastecimento hídrico e iniciativas de diversificação econômica.
A Samarco, responsável pela barragem rompida em Mariana, declarou solidariedade às comunidades atingidas e afirmou cumprir integralmente o Novo Acordo do Rio Doce, assinado em 2024. A empresa citou indenizações, reconstrução de distritos e ações ambientais em Minas Gerais e no Espírito Santo.
Já a TÜV SÜD afirmou que o rompimento foi uma grande tragédia, mas negou responsabilidade legal. A empresa sustenta que as declarações de estabilidade foram legítimas e que a barragem estava estável no momento das certificações. Reportagem da Agência Brasil.
FAQ sobre a tragédia de Brumadinho e o processo judicial
Por que o caso de Brumadinho demorou sete anos para avançar na Justiça?
O processo envolve investigações complexas, disputas técnicas e recursos jurídicos sucessivos. Além disso, crimes corporativos costumam enfrentar maior lentidão devido ao peso econômico e político das empresas envolvidas.
Quem são os réus que podem responder criminalmente?
Quinze pessoas podem se tornar rés, incluindo ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale, além de funcionários da TÜV SÜD, empresa responsável por atestar a estabilidade da barragem.
O que pode acontecer ao final das audiências?
Após ouvir vítimas, testemunhas e réus até 2027, a juíza federal poderá decidir se o caso seguirá para julgamento em júri popular.
Por que Brumadinho é comparado a Mariana e Maceió?
Os três casos envolvem grandes empresas de mineração, falhas graves de segurança, fiscalização insuficiente e ausência de punições criminais efetivas até o momento.
As ações de reparação substituem a responsabilização criminal?
Não. Indenizações e acordos de reparação tratam de compensações econômicas e sociais, mas não substituem a apuração criminal nem a eventual punição dos
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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