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Araras-canindés voltam ao céu do Rio e expõem o desafio real da restauração ecológica
O retorno das araras-canindés ao céu do Rio de Janeiro não representa apenas uma cena simbólica. Ele escancara um dilema ambiental contemporâneo: restaurar a natureza exige mais do que preservar paisagens. Exige reconstruir relações ecológicas rompidas há séculos.
No início de janeiro, três fêmeas da espécie, consideradas extintas na capital fluminense, voltaram à vida livre no Parque Nacional da Tijuca. A soltura, conduzida pela organização da sociedade civil Refauna com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), marca a primeira reintrodução oficial da arara-canindé no município do Rio de Janeiro.
Uma volta que carrega ausência
As aves receberam os nomes de Fernanda, Suely e Fátima. A escolha homenageia personagens interpretadas por Fernanda Torres em obras recentes da cultura brasileira. O gesto leve contrasta com um dado duro. Segundo a bióloga Lara Renzeti, coordenadora do projeto de reintrodução, não existe mais população silvestre da espécie no Rio.
A soltura atual permanece, até o momento, a única iniciativa do tipo no estado. Ela não repõe uma população perdida. Ela inaugura um processo lento, incerto e repleto de riscos.
O caminho até a floresta
As araras vieram do Parque Três Pescadores, em Aparecida, no interior de São Paulo, onde funciona o Refúgio das Aves, centro especializado no acolhimento de animais silvestres não domesticados. O grupo original incluía um macho, chamado Selton, em homenagem ao ator Selton Mello.
No entanto, Selton não participou da soltura. Ele ainda se recupera de uma infecção pulmonar não contagiosa. O tratamento enfraqueceu suas penas de voo, o que inviabilizou a aclimatação. Por isso, ele aguarda a chegada de um novo grupo para completar o processo.
Aclimatar para não fracassar
As araras chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025. Desde então, permaneceram em um recinto instalado dentro da floresta, onde passaram por um processo rigoroso de aclimatação. A equipe do Refauna trabalhou para adaptar as aves aos sons, cheiros e ritmos do ambiente natural.
O treinamento incluiu exercícios diários de voo, fundamentais para o fortalecimento da musculatura peitoral. A equipe também interveio para reduzir comportamentos de risco, como aproximação excessiva de pessoas ou permanência prolongada no solo.
A alimentação passou por uma transição cuidadosa. As araras aprenderam a reconhecer frutas nativas da Mata Atlântica, como jabuticabas, em substituição às frutas comerciais e rações usadas em cativeiro. O alimento sempre ficou disponível em plataformas suspensas, para evitar associação direta com humanos.
Soltar não significa abandonar
Após a soltura, o acompanhamento continua intenso. O Refauna monitora os indivíduos e intervém sempre que necessário. A recaptura faz parte do protocolo e ocorre quando uma ave se expõe a riscos ou não consegue se alimentar sozinha.
Como são animais resgatados, muitas ainda associam pessoas à oferta de comida. Esse comportamento exige atenção constante, já que nem todos os encontros humanos representam segurança.
Ciência cidadã como aliada
O monitoramento em vida livre envolve também a participação da população. As araras usam anilhas, microchips e colares de identificação. Moradores e visitantes podem enviar registros ao Refauna, fortalecendo o que se chama de Ciência Cidadã.
Aplicativos como o SISS-Geo, desenvolvido pela Fundação Oswaldo Cruz, permitem registrar avistamentos e ajudam a mapear os deslocamentos das aves. Segundo a equipe técnica, essa colaboração tem se mostrado decisiva.
Educação ambiental como fronteira final
O projeto inclui ainda ações educativas. O Refauna desenvolve cursos de formação com guias do Parque Nacional da Tijuca, para orientar visitantes sobre como agir diante dos animais silvestres. A chefe do parque, Viviane Lasmar, destaca que preservar exige reduzir a ignorância ambiental.
Para ela, a presença das araras comprova a qualidade ambiental da floresta. A Tijuca, frequentemente reduzida ao Cristo Redentor e ao turismo, abriga uma complexa rede de vida que depende de equilíbrio constante.
Reintroduzir para que a floresta sobreviva
A meta do Refauna prevê a soltura de 50 araras-canindés em cinco anos. A bióloga Lara Renzeti reconhece que a reintrodução não segue uma lógica exata. Nem todos os indivíduos se estabelecem. A estratégia aposta no número para aumentar as chances de reprodução.
Embora a arara-canindé não esteja ameaçada globalmente, no estado do Rio de Janeiro ela desapareceu há décadas. Registros históricos indicam sua presença na Mata Atlântica desde o século 16.
Desde 2010, o Refauna já reintroduziu espécies como a cutia-vermelha, o bugio-ruivo e o jabuti-tinga. A lógica é clara. Sem fauna, a floresta perde a capacidade de se regenerar. Estudos indicam que cerca de 90% das plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersar sementes.
Quando uma espécie desaparece, não some sozinha. Um ciclo inteiro se rompe. O retorno das araras-canindés não encerra esse processo. Ele apenas lembra que restaurar a natureza exige paciência, método e, sobretudo, humildade. Reportagem da Agência Brasil.
FAQ sobre a reintrodução das araras-canindés
Por que a arara-canindé era considerada extinta no Rio de Janeiro?
A espécie desapareceu do estado devido à caça, ao tráfico de animais silvestres e à destruição da Mata Atlântica ao longo de séculos.
O que diferencia reintrodução de simples soltura?
A reintrodução envolve planejamento, aclimatação, monitoramento contínuo e avaliação científica para garantir a sobrevivência da espécie.
As araras soltas já formam uma população estável?
Não. O processo está em fase inicial e depende de novas solturas, adaptação ao ambiente e reprodução bem-sucedida.
Por que a participação da população é importante?
Relatos de avistamentos ajudam a localizar as aves, identificar riscos e orientar intervenções rápidas da equipe técnica.
Qual é o impacto ecológico da volta das araras?
As araras atuam como dispersoras de sementes, contribuindo para a regeneração da floresta e o equilíbrio do ecossistema.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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