Abuso policial aumenta a insegurança no Brasil

HRW afirma que abuso policial aumenta a insegurança no Brasil. Em 2025, forças de segurança mataram 5.920 pessoas no país.
Abuso policial aumenta a insegurança no Brasil
Foto: Agência Brasil / Tomaz Silva

O uso irrestrito da força letal como estratégia de segurança pública não reduz o crime no Brasil. Ao contrário: ele amplia a violência, aumenta a insegurança e coloca até os próprios policiais em risco. Essa é a avaliação da Human Rights Watch (HRW), que publicou nesta quarta-feira (4/2) o Relatório Mundial 2026, com análise de direitos humanos em mais de 100 países.

Segundo dados compilados no relatório, forças policiais mataram 5.920 pessoas entre janeiro e novembro de 2025. Além disso, a HRW afirma que brasileiros negros têm três vezes e meia mais chances de se tornarem vítimas do que brancos.

O documento também aponta um paradoxo que já virou rotina no país: a política de “guerra” promete ordem, mas entrega medo. E, enquanto isso, as facções crescem no vácuo da confiança.

O que a HRW afirma sobre a letalidade policial

Para o diretor da Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz, o problema central está no modelo de operação. Segundo ele, entrar em comunidades atirando não desmantela grupos criminosos.

Na avaliação do diretor, essa prática apenas cria mais insegurança, aumenta o risco para moradores e também expõe policiais a situações ainda mais violentas.

O relatório destaca como exemplo a operação mais letal da história do Rio de Janeiro. Em outubro do ano passado, a chamada Operação Contenção, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, matou 122 pessoas. A ação buscava capturar lideranças da facção Comando Vermelho.

O Brasil mata muito e investiga pouco

Muñoz afirma que a letalidade policial segue em níveis altos principalmente por falta de apuração adequada nos casos de mortes decorrentes de intervenção policial.

Ele cita novamente o Rio de Janeiro como um exemplo crítico. Segundo o diretor, um dos principais problemas do estado é que a perícia permanece subordinada à Polícia Civil, sem a independência necessária para conduzir o trabalho de forma confiável.

Na prática, o modelo produz um círculo vicioso: quanto menos investigação existe, mais permissividade se instala. E, quanto mais permissividade se instala, mais mortes se acumulam.

Nem toda morte é legítima defesa, diz o relatório

A HRW reconhece que algumas mortes provocadas por policiais podem ocorrer em legítima defesa. No entanto, Muñoz afirma que muitas mortes se configuram como execuções extrajudiciais.

Essa distinção importa porque ela muda tudo: uma polícia que reage a uma ameaça real atua dentro da lei. Já uma polícia que executa, mesmo sob o discurso da segurança, rompe o pacto básico do Estado com a sociedade.

E, quando esse pacto se rompe, a insegurança deixa de ser apenas um problema criminal. Ela vira um problema institucional.

A saúde mental dos policiais também aparece como alerta

O relatório também chama atenção para o impacto da violência sobre os próprios agentes. Segundo dados do Ministério da Justiça citados no documento, 185 policiais morreram em 2025. Além disso, 131 policiais cometeram suicídio no mesmo ano.

De acordo com a HRW, a taxa de suicídio entre policiais supera a média da população. Para a entidade, esse número reflete a exposição contínua desses profissionais à violência e o apoio inadequado à saúde mental.

Ou seja, o país parece conseguir algo improvável: transformar a polícia em instrumento de risco para o cidadão e, ao mesmo tempo, em ambiente de risco para o próprio policial.

Corrupção e abuso enfraquecem a confiança e fortalecem facções

O relatório também destaca um efeito colateral que, na verdade, funciona como motor do problema: comunidades que sofrem abusos e convivem com corrupção policial passam a desconfiar das autoridades.

Consequentemente, essas comunidades denunciam menos crimes e colaboram menos com investigações. Assim, a inteligência policial perde informações essenciais, enquanto o crime organizado ganha terreno.

A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, reforçou esse ponto durante o lançamento do relatório. Ela afirmou que polícias violentas e polícias corruptas fortalecem o crime organizado.

Segundo Samira, facções só atingiram o nível atual de expansão no Brasil porque contam com corrupção do Estado. Ela também defendeu que uma polícia violenta não representa força, mas fragilidade, pois se torna vulnerável à infiltração criminosa.

O que a Human Rights Watch defende como alternativa

Muñoz defende propostas baseadas em ciência e em dados. Segundo ele, o Brasil precisa de ações que realmente desmantelem grupos criminosos.

Para isso, ele aponta como caminho o fortalecimento de investigações baseadas em inteligência, com apuração independente. O objetivo, segundo o diretor, inclui identificar vínculos entre facções e agentes do Estado, além da infiltração do crime organizado na economia legal.

Ao mesmo tempo, Samira Bueno defendeu investimento em mecanismos de controle da atividade policial. Ela destacou o papel do Ministério Público na investigação de casos de mortes em operações.

Para ela, o Estado pode usar força para proteger a si mesmo e proteger terceiros. No entanto, o país não pode aceitar que esse argumento funcione como desculpa para execuções sumárias e abusos.

O ponto que o Brasil evita encarar

O relatório da HRW expõe um dilema que o Brasil costuma tratar como tabu: o país quer segurança, mas insiste em um modelo que gera mais mortes do que resultados.

Ao mesmo tempo, parte do discurso público ainda confunde brutalidade com eficiência. No entanto, quando a polícia mata em escala industrial, a sociedade não fica mais protegida. Ela apenas se acostuma a viver sob medo.

E o medo, como se sabe, nunca foi um bom projeto de país. A reportagem é da Agência Brasil.

FAQ sobre abuso policial e insegurança no Brasil, segundo a Human Rights Watch

Quantas pessoas morreram em ações policiais no Brasil em 2025, segundo a HRW?
O Relatório Mundial 2026 da Human Rights Watch indica que forças policiais mataram 5.920 pessoas entre janeiro e novembro de 2025. O número aparece como um dos principais indicadores da letalidade policial no país.

O que a Human Rights Watch conclui sobre o uso da força letal como estratégia de segurança?
A HRW afirma que o uso irrestrito da força letal não reduz a violência e não torna as cidades mais seguras. Segundo a entidade, esse modelo produz mais insegurança, amplia conflitos e coloca moradores e policiais em risco.

Por que a HRW diz que pessoas negras são mais afetadas pela letalidade policial?
O relatório aponta que brasileiros negros têm três vezes e meia mais chances de morrer em ações policiais do que brancos. A HRW utiliza esse dado como evidência de um padrão de desigualdade racial na forma como a violência estatal se distribui no país.

O que foi a Operação Contenção citada no relatório?
A Operação Contenção ocorreu nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, e buscava capturar lideranças do Comando Vermelho. Segundo a HRW, ela foi a operação mais letal da história do estado, com 122 mortos em outubro do ano passado.

Quais mudanças a HRW defende para reduzir violência e insegurança?
A HRW defende propostas baseadas em ciência e dados, com foco em inteligência investigativa e apuração independente. O objetivo inclui desmantelar facções, identificar vínculos entre crime organizado e agentes do Estado, fortalecer controle externo e combater abusos e corrupção dentro das forças de segurança.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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