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Brasil bate recorde de feminicídios em 2025 e confirma a falência da proteção às mulheres
O Brasil chegou a 2025 com um marco simbólico: a Lei do Feminicídio completou dez anos. No entanto, o país também chegou com um marco brutal: 1.518 mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica ou discriminação. O número representa um novo recorde nacional e equivale a uma média de quatro mortes por dia.
O dado veio do Ministério da Justiça e Segurança Pública. E, embora o termo “recorde” pareça coisa de manchete esportiva, aqui ele aparece como uma espécie de certidão: a rede de proteção falhou. Além disso, o Estado falhou. E, quando falha, ele falha em todas as escalas, do município ao governo federal.
Recorde em cima de recorde: 2024 já havia sido o pior ano
O número de 2025 não surgiu do nada. Em 2024, o Brasil já tinha registrado 1.458 feminicídios, o que também configurou recorde até então. Ou seja: o país não vive um pico isolado. Ele vive uma escalada.
Essa sequência derruba qualquer tentativa de tratar o problema como “exceção”. Além disso, ela desmonta o discurso de que a legislação, sozinha, consegue proteger vidas. A lei existe. O crime está tipificado. Mesmo assim, a realidade continua matando.
Por que o feminicídio ainda cresce mesmo com a lei em vigor
Durante o lançamento do relatório anual da Human Rights Watch (HRW), nesta quarta-feira (4), a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, resumiu o cenário com uma frase que deveria constranger qualquer gestor público:
“Se [a alta de casos] está acontecendo, isso é uma omissão do Estado, porque esse é um crime evitável.”
A fala não aparece como retórica. Ela aparece como diagnóstico. Afinal, o feminicídio raramente começa com o assassinato. Ele costuma nascer antes, em ciclos de ameaça, agressão, controle, humilhação e medo. E, nesse intervalo, o Estado deveria agir.
Mas o Estado, muitas vezes, chega tarde. Ou não chega.
O relatório da Human Rights Watch e a violência como padrão
O relatório anual da Human Rights Watch analisa a situação dos direitos humanos em mais de 100 países. No caso do Brasil, o documento apontou a violência doméstica e de gênero como uma das violações mais frequentes.
Em outras palavras: não se trata apenas de uma tragédia individual repetida milhares de vezes. Trata-se de um padrão social. E, quando um país normaliza um padrão, ele também normaliza o custo humano dele.
Desfinanciamento e rede de proteção enfraquecida
Samira Bueno afirmou que a omissão atinge todas as esferas de poder. Segundo ela, o Brasil vive hoje o desfinanciamento de políticas públicas voltadas à proteção de meninas e mulheres, especialmente nos níveis municipal e estadual.
Esse ponto importa porque a rede de proteção não funciona no papel. Ela funciona na rua. Ela depende de assistência social, saúde e polícia. Além disso, ela depende de equipes treinadas, protocolos claros e capacidade real de resposta.
Sem recursos humanos e financeiros, a política pública vira slogan. E slogan não salva ninguém.
Samira também destacou uma contradição que o Brasil conhece bem: muitos políticos defendem publicamente a “vida das mulheres”, mas, quando precisam garantir orçamento, o dinheiro não aparece.
Assim, a defesa vira discurso. E o discurso vira cinismo institucional.
Casos que explodiram nas redes expõem um país em estado de choque
Em 2025, casos de feminicídio ganharam grande repercussão na imprensa e nas redes sociais. Entre eles, o assassinato de Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo.
Esse tipo de crime gera comoção porque rompe a última camada de negação coletiva. No entanto, ele também revela algo incômodo: o país se choca, compartilha, comenta, exige justiça e, ainda assim, segue produzindo estatísticas.
Ou seja: o horror vira manchete. Depois, vira silêncio. E, em seguida, vira mais um número.
Pacto nacional tenta criar resposta coordenada entre os Três Poderes
Em resposta ao cenário, o governo federal, o Congresso Nacional e o Poder Judiciário lançaram, nesta semana, o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio.
A iniciativa prevê atuação coordenada e permanente entre os Três Poderes com o objetivo de prevenir a violência contra meninas e mulheres no país.
O plano também inclui o site TodosPorTodas.br, que deve reunir informações sobre o pacto, divulgar ações previstas, apresentar canais de denúncia e políticas públicas de proteção às mulheres. Além disso, a plataforma pretende estimular o engajamento de instituições públicas, empresas privadas e da sociedade civil.
Na teoria, a ideia faz sentido. Afinal, feminicídio não se combate com uma medida isolada. No entanto, o desafio começa depois da foto oficial: transformar pacto em rotina, promessa em orçamento e campanha em estrutura.
O Brasil sabe o que precisa fazer, mas ainda não decidiu fazer de verdade
O dado mais duro de 2025 não é apenas o recorde de 1.518 vítimas. O dado mais duro é o que ele implica: o país já sabe como o feminicídio acontece, já conhece o caminho que leva ao assassinato e já reconhece que esse crime pode ser evitado. Mesmo assim, o Brasil segue falhando.
Talvez porque combater feminicídio exija o que quase nunca aparece na política brasileira: continuidade, prioridade e investimento real. E, enquanto isso não existir, a Lei do Feminicídio continuará completando aniversários. E as mulheres continuarão morrendo. Reportagem da Agência Brasil.
FAQ sobre feminicídios no Brasil em 2025
Quantos feminicídios o Brasil registrou em 2025?
O Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número representa recorde histórico e equivale a uma média de quatro mortes por dia.
Por que 2025 é considerado um ano simbólico para a Lei do Feminicídio?
Porque a sanção da Lei do Feminicídio completou dez anos em 2025. A norma inseriu no Código Penal o crime de homicídio contra mulheres em contexto de violência doméstica ou discriminação, tornando o enquadramento mais específico e mais grave.
Qual foi o número de feminicídios em 2024 e por que isso importa?
Em 2024, o Brasil registrou 1.458 feminicídios, que já era recorde até então. O fato de 2025 superar 2024 mostra que o país vive uma escalada, e não um pico isolado, o que reforça a urgência de políticas públicas consistentes.
O que especialistas apontam como causa do aumento de feminicídios?
Especialistas apontam omissão do Estado e desfinanciamento das políticas públicas de proteção, especialmente nos níveis municipal e estadual. A rede de proteção depende de assistência social, saúde e polícia, e precisa de recursos humanos e financeiros para funcionar de forma efetiva.
O que é o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio?
O pacto é uma iniciativa conjunta entre governo federal, Congresso Nacional e Poder Judiciário. Ele prevê atuação coordenada e permanente para prevenir a violência contra meninas e mulheres. A estratégia inclui o site TodosPorTodas.br, que deve reunir informações, canais de denúncia e ações públicas.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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