Cartilha do Inca leva prevenção do câncer a terreiros e expõe um obstáculo ignorado: o racismo no atendimento

Inca lança cartilha que une saberes de terreiros e prevenção do câncer em mulheres negras, além de denunciar barreiras do racismo.
Cartilha do Inca leva prevenção do câncer a terreiros e expõe um obstáculo ignorado: o racismo no atendimento
Foto: Agência Brasil / Joédson Alves

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) decidiu falar de prevenção do câncer com quem, há décadas, já fala de cuidado do corpo inteiro: os terreiros. Por isso, lançou a cartilha Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer, um material gratuito, disponível na internet, que explica os tipos de câncer mais frequentes em mulheres negras bem como os hábitos que elevam ou reduzem o risco.;

E principalmente, um tema que costuma ser tratado como “detalhe”: o racismo, incluindo o racismo religioso, como barreira concreta ao diagnóstico e ao tratamento.

A proposta não aparece como um gesto simbólico. Ela surge como estratégia de saúde pública. Afinal, o câncer não espera o sistema “melhorar” e não respeita preconceitos. Além disso, a detecção precoce segue como a arma mais eficiente contra a doença. Portanto, aproximar informação confiável de espaços de acolhimento pode salvar vidas.

O que a cartilha do Inca explica, sem rodeios

A cartilha foi escrita em formato de conversa e traz imagens de mulheres e famílias negras em destaque. Além disso, o material usa referências da mitologia iorubá para dialogar com o cotidiano de quem vive e circula em terreiros.

Ao mesmo tempo, o conteúdo mantém foco direto: quais cânceres aparecem com mais frequência, quais sinais merecem atenção e quais hábitos ajudam a prevenir a doença.

Entre os exemplos, o material destaca o poder da amamentação na prevenção do câncer de mama. Além disso, aponta sinais de alerta para o câncer de intestino. Ainda, explica a transmissão do câncer de colo do útero, que ocorre pela via sexual.

Ou seja, o Inca não fala de “energia” como fuga. Ele fala de rotina, corpo, exame e prevenção. No entanto, ele escolhe uma linguagem e um território onde a mensagem costuma chegar com mais confiança.

As yabás como símbolo de autocuidado e vida plena

A cartilha apresenta as yabás, as orixás femininas, como referência para inspirar autocuidado e uma vida plena. Assim, o material conecta saúde com dignidade, identidade e pertencimento.

Além disso, o texto reforça hábitos saudáveis e lembra a necessidade de exames periódicos. A lógica segue clara: prevenção não se sustenta apenas com campanhas genéricas. Ela se sustenta com continuidade, vínculo e acesso.

Por isso, o material também organiza os principais exames de acordo com cada fase da vida. Dessa forma, ele reduz a distância entre a recomendação técnica e a prática real.

Uma cartilha feita para circular onde a saúde já circula

O Inca elaborou a cartilha para circular nos terreiros. O material nasceu como resultado da pesquisa Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras, realizada entre 2023 e 2025.

As pesquisadoras do Inca desenvolveram o trabalho junto com mulheres de duas casas de candomblé: Ilê Axé Obá Labí e Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô.

O Ilê Axé Obá Labí fica em Pedra de Guaratiba, na zona sudoeste do Rio de Janeiro. Já o Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô fica em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Esse recorte importa. Afinal, o câncer também segue o mapa das desigualdades. E, quando a saúde pública ignora os territórios, ela também ignora as pessoas.

O racismo como fator de risco e como bloqueio de acesso

A cartilha explica como o racismo pode aumentar o risco de adoecer e dificultar o acesso aos serviços e ao tratamento. Um exemplo aparece de forma brutal: o mito de que mulheres negras “aguentam mais dor”.

Esse tipo de crença não funciona apenas como preconceito. Ele funciona como atraso de diagnóstico, subestimação de sintomas e negligência institucional.

Além disso, o material mostra que o racismo não atua apenas na sala de consulta. Ele atua no caminho até a consulta. Ele atua na recepção. Ele atua no modo como a pessoa é tratada quando pede respeito.

Quando o nome vira motivo de provocação

Iyá Katiusca de Yemanjá, do terreiro Obá Labí, participou da redação da cartilha e descreveu uma situação recorrente: o constrangimento no atendimento.

Segundo ela, na clínica da família onde a comunidade recebe atendimento, quando uma pessoa pede para ser nomeada pelo nome religioso, ela escuta provocações, como “de onde você tirou esse nome?”.

Isso não representa um conflito “cultural” abstrato. Isso representa um mecanismo de afastamento. Afinal, ninguém volta com tranquilidade a um lugar onde sofre humilhação.

Portanto, a cartilha não apenas orienta sobre câncer. Ela também denuncia o que impede a prevenção de acontecer.

“Os terreiros sempre promoveram a saúde”, lembra a sacerdotisa

Em Pedra de Guaratiba, Iyá Katiusca de Yemanjá lidera um programa de saúde popular e de acesso a direitos, aberto a toda a comunidade, dentro do terreiro. Segundo ela, os terreiros sempre promoveram a saúde. Ela cita banhos de ervas, lavagens, chás, modos de viver e um cuidado especial com a saúde íntima da mulher.

Além disso, ela afirma que a tradição entende o corpo por inteiro. Esse ponto se torna ainda mais relevante quando se fala de mulheres negras de periferia, que muitas vezes se cuidam menos por causa da sobrecarga de trabalho.

Assim, o trabalho do terreiro, segundo ela, fortalece esse corpo para buscar os serviços. Em outras palavras: o cuidado espiritual não substitui o cuidado médico. Ele sustenta a travessia até ele.

O fio de conta e o tipo de violência que parece pequena

A coordenadora-geral da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), Mãe Nilce de Iansã, também chama atenção para um ponto que muita gente trataria como “exagero”, mas que na prática funciona como mais um empurrão para longe do sistema.

Ela relata casos em que hospitais exigem que pacientes retirem fios de conta para examinar pé ou mão, sem necessidade clínica real. Segundo ela, os fios não representam enfeite, mas proteção. E se o fio não atrapalha a consulta, a pessoa deve permanecer com ele. Essa demanda não pede privilégio. Ela pede respeito.

E respeito, em saúde, não funciona como “gentileza”. Ele funciona como condição para adesão, retorno e continuidade do cuidado.

O racismo religioso como determinante social

Mãe Nilce, que tratou um câncer de pulmão no próprio Inca, define o racismo religioso como determinante social na vida das mulheres negras. Ou seja, uma condição que vai além da genética e se relaciona com o ambiente onde a pessoa vive.

Esse ponto desmonta uma visão comum: a de que câncer se resume a biologia individual. Na realidade, o câncer também se relaciona com acesso, tempo de diagnóstico, acolhimento e continuidade do tratamento.

Portanto, quando o sistema empurra mulheres negras para fora, ele também empurra diagnósticos para mais tarde. E, no câncer, o “mais tarde” cobra caro.

O que o Inca propõe com o diálogo entre terreiros e medicina

Para as autoras, os terreiros funcionam como locais de acolhimento, cuidado e solidariedade. Além disso, representam espaços de cultura e religiosidade afro-brasileira.

Assim, aproximar esse universo dos saberes técnicos pode ajudar a prevenir doenças como o câncer. Esse foi o diálogo proposto na cartilha.

Em termos práticos, a proposta não tenta “converter” a medicina em religião, nem “traduzir” a fé em linguagem clínica. Ela tenta resolver um problema mais simples e mais urgente: levar informação correta e prevenção real até quem, muitas vezes, encontra barreiras no caminho até o posto de saúde.

Além disso, a cartilha reforça algo que o Brasil insiste em esquecer: saúde pública não se sustenta apenas com hospitais. Ela se sustenta com confiança. Reportagem da Agência Brasil.

FAQ sobre a cartilha Saúde com Axé e prevenção do câncer em mulheres negras

O que é a cartilha Saúde com Axé, lançada pelo Inca?
A cartilha Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer é um material educativo criado pelo Instituto Nacional de Câncer. Ela explica quais cânceres aparecem com mais frequência em mulheres negras, quais hábitos influenciam o risco e quais exames ajudam na detecção precoce. Além disso, o conteúdo aborda como o racismo e o racismo religioso dificultam o acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

Por que o Inca decidiu dialogar diretamente com terreiros de religiões afro-brasileiras?
O Inca escolheu os terreiros porque eles já atuam como espaços comunitários de acolhimento e cuidado, especialmente em regiões periféricas. Além disso, muitas mulheres negras confiam nesses espaços e encontram ali apoio emocional, cultural e social. Dessa forma, a cartilha usa um território onde a informação pode circular com mais força, continuidade e credibilidade.

Quais temas de prevenção do câncer aparecem na cartilha?
O material aborda, por exemplo, a importância da amamentação na prevenção do câncer de mama, sinais de alerta para câncer de intestino e informações sobre o câncer de colo do útero, incluindo sua transmissão pela via sexual. Além disso, a cartilha reforça hábitos saudáveis e a realização de exames periódicos, que seguem como a principal estratégia de detecção precoce.

Como o racismo e o racismo religioso podem atrapalhar o diagnóstico e o tratamento?
O racismo pode atrasar diagnósticos ao influenciar a forma como sintomas são interpretados e tratados, como no mito de que mulheres negras suportam mais dor. Já o racismo religioso pode criar constrangimentos e humilhações no atendimento, como provocações sobre nomes religiosos ou exigências desnecessárias para retirar símbolos de fé. Isso afasta pacientes dos serviços, reduz o retorno às consultas e enfraquece a continuidade do cuidado.

Qual é a principal mensagem prática da cartilha para mulheres negras?
A principal mensagem é que prevenção precisa ser rotina, não exceção. A cartilha incentiva o autocuidado com base em hábitos saudáveis, atenção a sinais do corpo e realização de exames periódicos em cada fase da vida. Ao mesmo tempo, ela reforça que buscar diagnóstico e tratamento é um direito, e que o respeito à identidade cultural e religiosa deve caminhar junto com o atendimento técnico.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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