Casos de sarampo disparam nas Américas e expõem um velho problema: a vacina virou “opinião”

Casos de sarampo explodem nas Américas e a Opas alerta: a maioria dos infectados não se vacinou. Brasil segue livre, mas em risco.
Casos de sarampo disparam nas Américas e expõem um velho problema: a vacina virou “opinião”
Foto: Canva

O sarampo voltou a fazer aquilo que sempre fez: aproveitar qualquer brecha para entrar, circular e humilhar sociedades que juram viver na era da ciência. Em 2025, os casos nas Américas saltaram de 446 para 14.891 – um aumento de quase 32 vezes – e a Opas, braço regional da OMS, emitiu um alerta direto: o continente precisa reagir agora, de forma coordenada.

O motivo central aparece sem rodeios no próprio alerta: a maioria dos casos ocorre em pessoas sem histórico de vacinação. Ou seja, não se trata de um “mistério epidemiológico”, nem de um vírus “mais esperto”. Trata-se do básico. E, ainda assim, o básico virou exceção.

Enquanto isso, o Brasil segue oficialmente como país livre do sarampo, mesmo tendo registrado 38 casos em 2025. O país não registrou casos reconhecidos em 2026 até agora. Porém, a matemática do sarampo não costuma respeitar status, certificados ou boas intenções. Ela respeita cobertura vacinal.

O alerta da Opas e o salto que ninguém deveria normalizar

Em 2025, as Américas registraram 14.891 casos de sarampo, contra 446 em 2024. Além disso, o continente contabilizou 29 mortes no período. Já em janeiro de 2026, dados parciais apontaram 1.031 casos — quase 45 vezes acima dos 23 do mesmo mês de 2025.

Esse crescimento não aconteceu de maneira homogênea. Pelo contrário: ele se concentrou de forma esmagadora na América do Norte. Em 2025, México (6.428), Canadá (5.436) e Estados Unidos (2.242) responderam por quase 95% dos casos. Em 2026, os três países somaram 948 registros, o equivalente a 92% das notificações.

Portanto, a região que costuma se vender como vitrine de infraestrutura e “excelência” em saúde pública virou o epicentro do problema. E isso diz muito sobre o mundo atual.

O detalhe que pesa: quase todos os infectados não tinham vacina

O dado mais desconfortável também aparece como o mais simples: a Opas identificou que a grande maioria dos casos ocorreu em pessoas não vacinadas ou com histórico vacinal desconhecido.

Nos Estados Unidos, 93% dos infectados não tinham vacinação registrada ou apresentavam histórico incerto. No México, o índice chegou a 91,2%. No Canadá, 89% dos casos ocorreram no mesmo perfil.

Ou seja, o sarampo não “furou” uma barreira imunológica sólida. Ele encontrou a barreira quebrada. E, na prática, encontrou comunidades inteiras onde a vacinação deixou de ser política pública e virou debate cultural.

Por isso, a Opas classificou o cenário como um sinal de alerta que exige ação imediata e coordenada dos países membros.

O continente perdeu o certificado de região livre de transmissão

O alerta não surgiu do nada. Em novembro do ano passado, a Opas retirou das Américas o certificado de região livre da transmissão do sarampo.

Esse tipo de certificado não existe como “troféu simbólico”. Ele funciona como indicador epidemiológico: quando a transmissão sustentada volta a ocorrer, o continente perde o status. E, quando isso acontece, o risco se espalha em cascata, principalmente por causa do fluxo de pessoas.

Além disso, a perda do certificado serve como um lembrete duro: erradicação não significa imunidade eterna. Ela depende de manutenção.

Brasil livre do sarampo, mas com um aviso embutido

O Brasil registrou 38 notificações de sarampo em 2025. Em 2024, o país havia registrado quatro casos. Em 2026, até o momento, não há caso reconhecido.

Mesmo assim, o Brasil mantém o status de país livre do sarampo. Isso acontece porque o país não registrou transmissão sustentada. Em outras palavras: os casos não “engrenaram” como cadeia contínua.

A Opas detalhou o perfil dos casos brasileiros em 2025:

  • 10 casos importados (infecção contraída no exterior)
  • 25 casos relacionados à importação
  • 3 casos com fonte de infecção desconhecida

Os registros confirmados ocorreram no Distrito Federal (1), Maranhão (1), Mato Grosso (6), Rio de Janeiro (2), São Paulo (2), Rio Grande do Sul (1) e Tocantins (25). Além disso, praticamente todos os casos brasileiros de 2025 ocorreram em pessoas sem histórico de vacinação: 36 dos 38.

Portanto, o país não enfrenta uma crise interna de transmissão. Porém, ele enfrenta um risco constante de reintrodução – e o sarampo só precisa de uma oportunidade.

O risco “inexorável” que chega em voos diários

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, resumiu a situação com uma frase que poderia soar exagerada em qualquer outro tema, mas que aqui parece apenas realista: a entrada do sarampo no Brasil se torna inexorável.

Segundo ele, o surto na América do Norte acontece em um momento em que o Brasil controla a doença e recuperou, em 2024, o certificado de livre do sarampo.

No entanto, Kfouri lembrou um ponto que o país já conhece na prática. Em 2018, com grande fluxo migratório e baixa cobertura vacinal, o vírus voltou a circular. Em 2019, depois de um ano de circulação, o Brasil perdeu o status.

Agora, o risco volta a crescer por um motivo óbvio: circulação internacional. O Brasil recebe voos diários do Canadá, México e Estados Unidos. E, quando o sarampo circula nesses países, ele também circula nas rotas aéreas.

Por isso, Kfouri defendeu vigilância ativa e coberturas altas, para impedir que casos importados se transformem em transmissão sustentada.

Entenda o sarampo: uma doença antiga, mas nada inofensiva

O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa. Ele pode evoluir para complicações graves e levar à morte, principalmente em crianças pequenas, pessoas imunossuprimidas e populações com baixa cobertura vacinal.

Os sintomas mais comuns incluem febre, tosse, coriza, perda de apetite e conjuntivite. Os olhos podem ficar vermelhos, lacrimejantes e sensíveis à luz.

Além disso, o sarampo provoca manchas vermelhas na pele. As erupções geralmente começam no rosto e na região atrás da orelha. Em seguida, elas se espalham pelo corpo.

Em alguns casos, a pele descama como se tivesse sofrido queimadura. E, nas formas graves, a doença pode causar cegueira, pneumonia e encefalite (inflamação do cérebro).

Portanto, o sarampo não ocupa o lugar de “doença infantil inevitável”. Ele ocupa o lugar de ameaça real, com custo humano e hospitalar.

Vacinação: o caminho mais simples, barato e ignorado

A vacinação representa a principal forma de prevenção. O SUS oferece o imunizante gratuitamente, dentro do calendário básico de vacinação infantil. A primeira dose ocorre aos 12 meses, com a vacina tríplice viral, que protege também contra caxumba e rubéola. A segunda dose ocorre aos 15 meses.

Além disso, qualquer pessoa com até 59 anos que não tenha comprovante de imunização, ou que não tenha completado o esquema, precisa atualizar a carteira.

O Ministério da Saúde informou que dados preliminares de 2025 indicaram avanço expressivo da cobertura da tríplice viral em relação a 2022. A cobertura subiu de 80,7% para 93,78%. Já a dose de reforço avançou de 57,6% para 78,9% no mesmo período.

Apesar disso, a Sociedade Brasileira de Imunizações reforça que o mínimo necessário para evitar surtos exige 95% de cobertura. Ou seja, o país melhorou. Porém, ele ainda não fechou a porta completamente. E o sarampo costuma entrar por frestas.

As recomendações da Opas: vigilância, busca ativa e vacinação complementar

A Opas recomendou medidas diretas e práticas para os países das Américas. Entre elas, aparecem três prioridades:

  • Reforçar atividades de vigilância e vacinação de rotina, com resposta rápida aos casos suspeitos
  • Implementar busca ativa em comunidades, instituições e laboratórios para identificar casos precocemente
  • Desenvolver ações complementares de vacinação para eliminar lacunas de imunidade

Na prática, a Opas pede que os países façam o que sempre funcionou: identificar rápido, isolar quando necessário e vacinar antes do incêndio.

O que o Ministério da Saúde diz que já faz

Procurado pela Agência Brasil, o Ministério da Saúde afirmou que orienta estados e municípios a reforçar vigilância epidemiológica, vacinação e ações de prevenção. Segundo a pasta, as medidas incluem investigação rápida de casos suspeitos e ampliação das coberturas vacinais.

Além disso, o ministério informou que intensificou a vacinação em 2025, especialmente em regiões de fronteira com a Bolívia, e doou mais de 640 mil doses ao país vizinho. A pasta também afirmou que intensificou ações em municípios de fronteira com Argentina e Uruguai e em cidades turísticas e de alto fluxo.

O sarampo como sintoma de uma contradição moderna

O sarampo não voltou porque a medicina falhou. Ele voltou porque a sociedade falhou em sustentar uma conquista básica.

Em teoria, a humanidade vive um tempo em que satélites mapeiam florestas em tempo real, algoritmos preveem surtos e laboratórios sequenciam vírus em dias. Na prática, parte do planeta trata vacina como se fosse escolha estética.

Essa contradição não mora apenas em redes sociais. Ela mora no cotidiano, na hesitação silenciosa, no adiamento, no “depois eu vejo”, no “não é tão urgente”. E, quando isso se soma em massa, vira estatística continental.

Por isso, o alerta da Opas não fala só sobre sarampo. Ele fala sobre um tipo de fragilidade moderna: a capacidade de desmontar conquistas públicas com a mesma facilidade com que se compartilha uma dúvida mal informada.

O Brasil ainda mantém o status de país livre. No entanto, ele não vive isolado. E, no mundo real, o sarampo não pede licença, não respeita fronteiras e não espera consenso. Reportagem da Agência Brasil.

FAQ sobre o aumento de casos de sarampo nas Américas

Por que os casos de sarampo aumentaram tanto nas Américas em 2025?
O aumento se relaciona principalmente à baixa cobertura vacinal em grupos específicos e à presença de pessoas sem histórico de vacinação. Como o sarampo é altamente contagioso, ele se espalha rapidamente quando encontra bolsões de população suscetível.

O Brasil corre risco de perder o status de país livre do sarampo?
Sim. O Brasil mantém o status porque não registra transmissão sustentada. Porém, o país enfrenta risco constante de reintrodução por meio de casos importados. Se o vírus começar a circular de forma contínua, o país pode perder o certificado novamente.

O que significa um caso importado de sarampo?
Um caso importado ocorre quando a pessoa se infecta fora do país e recebe o diagnóstico após entrar no território nacional. Esses casos exigem resposta rápida, porque podem iniciar cadeias de transmissão em áreas com baixa cobertura vacinal.

Qual cobertura vacinal impede surtos de sarampo?
Especialistas indicam que o mínimo necessário para evitar surtos exige 95% de cobertura vacinal. Quando o índice fica abaixo disso, o vírus encontra espaço para circular, principalmente em comunidades com baixa adesão à vacinação.

Quais sintomas indicam suspeita de sarampo e exigem atenção imediata?
Febre alta, tosse, coriza, conjuntivite, olhos vermelhos e sensíveis à luz, além de manchas vermelhas na pele que começam no rosto e se espalham pelo corpo. Diante desses sinais, a pessoa deve buscar atendimento e evitar contato próximo com outras pessoas até avaliação médica.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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