Amazônia Legal: desmatamento avança no entorno e expõe o ponto fraco das áreas protegidas

Relatório do Imazon mostra que o desmatamento cresce no entorno de áreas protegidas na Amazônia Legal e pressiona reservas e TIs.
Amazônia Legal: desmatamento avança no entorno e expõe o ponto fraco das áreas protegidas
Foto: Canva

O desmatamento na Amazônia Legal não precisa, necessariamente, invadir uma unidade de conservação para vencer. Muitas vezes, ele ganha só por cercar. E foi exatamente esse o alerta do relatório Ameaça e Pressão em Áreas Protegidas, divulgado trimestralmente pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon): a devastação continua prevalecendo no entorno das áreas protegidas, enquanto algumas delas já enfrentam pressão interna equivalente ou até crescente.

Em outras palavras, o relatório descreve uma Amazônia onde o “protegido” funciona como conceito no papel, mas, na prática, segue cercado por um cinturão de motosserra, fogo e expansão ilegal. Além disso, quando esse cinturão se consolida, o salto para dentro do território protegido vira questão de tempo.

O que o Imazon chama de ameaça e o que chama de pressão

O relatório trabalha com duas categorias centrais. A primeira é a ameaça, que representa o desmatamento registrado próximo às áreas protegidas, a partir do limite, em até 10 quilômetros. Essa faixa recebe o nome de zona de amortecimento.

A segunda é a pressão, que ocorre quando o desmatamento já aparece dentro dos limites de unidades de conservação ou Terras Indígenas.

A pesquisadora do Imazon Bianca Santos resume a lógica de forma direta: o que acontece fora, até 10 quilômetros, já representa ameaça; o que acontece dentro já indica invasão, portanto, pressão interna.

O detalhe incômodo é que, na Amazônia real, ameaça e pressão não são categorias separadas por uma barreira invisível. Elas funcionam como etapas do mesmo processo. Primeiro o entorno perde. Depois o território protegido começa a ceder.

O recorte analisado e como o relatório mapeia o desmatamento

O relatório mais recente da série histórica, iniciada em 2017, analisou as ocorrências entre outubro e dezembro de 2025. Para isso, o Imazon usou imagens de satélite e dividiu o território em recortes de 10 quilômetros quadrados, chamados de células.

A partir dessas células, o instituto identificou quais áreas protegidas e quais entornos concentraram mais registros de desmatamento no trimestre.

O método revela um padrão que costuma passar despercebido em debates genéricos: o desmatamento não aparece de forma “espalhada” e aleatória. Ele se concentra, insiste e retorna, como se certas áreas funcionassem como portas abertas permanentes.

O balanço geral: 904 células com desmatamento em áreas protegidas e no entorno

Em toda a Amazônia Legal, o Imazon identificou 904 células com ocorrência de desmatamento em unidades de conservação federais, estaduais, Terras Indígenas e também no entorno dessas áreas.

Dessas 904 células, 577 (64%) indicaram ameaça, pois apareceram fora dos limites. Já 327 (36%) indicaram pressão, pois surgiram dentro dos territórios protegidos.

O dado, sozinho, já carrega um recado óbvio: o desmatamento continua mais forte do lado de fora. No entanto, a presença de mais de um terço das ocorrências dentro das áreas protegidas expõe outro recado, bem menos confortável: a proteção formal não garante proteção real.

O contraste entre áreas federais, estaduais e Terras Indígenas

Quando o relatório separa as ocorrências por tipo de área protegida, o cenário fica ainda mais revelador. Nas unidades de conservação estaduais, o desmatamento aparece com equilíbrio: 50% de ameaça e 50% de pressão. Ou seja, nessas áreas, a devastação já não se limita ao entorno. Ela entra com a mesma força.

Nas Terras Indígenas, o padrão mostra maior concentração no entorno: 68% de ameaça e 32% de pressão. Já nas Unidades de Conservação Federais, a lógica se repete: 69% de ameaça e 31% de pressão interna.

Esse recorte indica que as áreas federais e as Terras Indígenas ainda seguram mais o desmatamento dentro dos limites. Porém, ao mesmo tempo, elas enfrentam um cerco externo constante. Enquanto isso, nas áreas estaduais, a linha entre “ameaça” e “pressão” parece mais frágil. E isso, por si só, deveria acender um alerta político e institucional.

As áreas mais pressionadas no último trimestre de 2025

No ranking das áreas protegidas com maior pressão interna no trimestre analisado, a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no Acre, aparece no topo. Ela é uma unidade de conservação federal.

Em seguida, o relatório aponta a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no Pará, e a Resex Tapajós-Arapiuns, também no Pará.

A lista chama atenção por um motivo simples: não se trata de áreas desconhecidas, invisíveis ou recém-criadas. São territórios que aparecem recorrentemente no noticiário ambiental. Portanto, a repetição sugere que o problema não está na falta de diagnóstico, mas na falta de reação eficiente.

As áreas mais ameaçadas: o desmatamento cercando por fora

Quando o critério passa a ser ameaça, ou seja, desmatamento detectado em até 10 quilômetros do limite, a Floresta Nacional (Flona) de Saracá-Taquera, no Pará, aparece como a mais ameaçada. A Resex Chico Mendes surge em segundo lugar, seguida pela Resex Tapajós-Arapiuns.

Na prática, o ranking mostra um detalhe que costuma ser ignorado: uma área pode aparecer ao mesmo tempo como ameaçada e pressionada. Isso indica que o desmatamento não apenas ronda o território. Ele se aproxima e, em muitos casos, já entrou.

O alerta mais duro do relatório: a recorrência expõe falhas no enfrentamento

Segundo Bianca Santos, o relatório funciona como um alerta para evitar o avanço dos problemas ambientais. No entanto, ela aponta um elemento ainda mais grave: a recorrência das mesmas áreas protegidas entre as dez mais ameaçadas e pressionadas revela ineficiência nas ações de enfrentamento em regiões específicas.

Na série histórica, o Imazon observa que as áreas protegidas frequentemente trocam entre si as classificações. Uma área que ontem aparecia como ameaçada hoje aparece como pressionada. Em outras palavras, o desmatamento deixa de ser “vizinho” e passa a ser “morador”.

Bianca resume o padrão com um diagnóstico pessimista, porém coerente com os dados: áreas que antes eram muito ameaçadas agora já se encontram muito pressionadas.

Essa constatação tem um efeito incômodo, porque desmonta a narrativa confortável de que “as áreas protegidas estão segurando”. Algumas seguram. Outras já estão perdendo. E, quando uma área protegida perde, o prejuízo não se limita ao mapa. Ele atinge biodiversidade, clima, rios, populações tradicionais e o equilíbrio ambiental que sustenta o próprio Brasil.

O paradoxo da proteção: a Amazônia protegida segue cercada

O relatório do Imazon, no fim, expõe um paradoxo: o país acumula categorias de proteção, cria limites no papel e mantém uma série histórica robusta. Porém, ainda convive com a repetição dos mesmos focos de devastação.

Isso sugere que o problema já não está em “descobrir onde desmata”. O problema está em impedir que o desmatamento continue acontecendo onde já se sabe que ele acontece. E, quando a ameaça vira rotina, a pressão interna deixa de ser surpresa. Ela vira consequência. Reportagem da Agência Brasil.

FAQ sobre desmatamento em áreas protegidas na Amazônia Legal

O que o relatório do Imazon analisou no último trimestre de 2025?
O relatório analisou as ocorrências de desmatamento entre outubro e dezembro de 2025 na Amazônia Legal. O estudo usou imagens de satélite e recortes de 10 quilômetros quadrados, chamados de células, para identificar onde o desmatamento se concentrou dentro e no entorno de áreas protegidas.

Qual é a diferença entre “ameaça” e “pressão” no relatório do Imazon?
O Imazon considera ameaça o desmatamento detectado fora das áreas protegidas, em uma faixa de até 10 quilômetros a partir do limite, conhecida como zona de amortecimento. Já a pressão ocorre quando o desmatamento aparece dentro dos limites de unidades de conservação ou Terras Indígenas, indicando invasão do território.

Quantas ocorrências de desmatamento o relatório registrou em áreas protegidas e no entorno?
O relatório identificou 904 células com desmatamento em unidades de conservação federais, estaduais, Terras Indígenas e no entorno dessas áreas. Dessas, 577 (64%) indicaram ameaça e 327 (36%) indicaram pressão interna, ou seja, desmatamento dentro dos limites.

Quais áreas protegidas apareceram como as mais pressionadas no trimestre?
A Reserva Extrativista Chico Mendes (AC) liderou o ranking de maior pressão interna. Em seguida, apareceram a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu (PA) e a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (PA). Essas áreas se destacaram pela maior concentração de células com desmatamento dentro de seus limites.

Por que a recorrência das mesmas áreas no ranking é considerada um sinal grave?
Porque ela indica que o problema não é falta de informação, mas falha persistente no enfrentamento. O relatório mostra que áreas que antes apareciam como ameaçadas frequentemente passam a aparecer como pressionadas, sugerindo que o desmatamento se aproxima, se consolida no entorno e depois avança para dentro das áreas protegidas.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

VER PERFIL

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Deixe um comentário

Veja Também