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Acordo de Paris completa 10 anos e ONU alerta: metas seguem insuficientes para segurar 1,5°C
Dez anos depois de virar o símbolo mais “civilizado” do combate à crise climática, o Acordo de Paris chega ao aniversário com um aviso incômodo: ele funciona, mas ainda não resolve. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que o mundo continua longe da meta mais sensível do tratado, que é limitar o aquecimento global a 1,5°C – um patamar crítico para evitar impactos severos e potencialmente irreversíveis.
Ou seja: o planeta ganhou um pacto histórico, mas ainda insiste em operar como se a história não tivesse consequências.
Adotado na COP21, em 2015, e em vigor desde 2016, o Acordo de Paris reúne 195 Estados Partes em torno de um compromisso global para reduzir emissões e acelerar a transição para economias de baixo carbono. No entanto, o próprio sistema criado para organizar essa mudança hoje expõe um paradoxo: o mundo está melhor do que antes, mas ainda está longe do que precisa.
O limite de 1,5°C ainda exige queda de 43% nas emissões até 2030
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indica que as emissões globais precisam cair 43% até 2030 para que o objetivo de 1,5°C permaneça ao alcance. Por isso, a pressão internacional se concentra na atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são os planos climáticos que cada país apresenta e revisa em ciclos de cinco anos.
Em outras palavras: o acordo existe, o método existe, o calendário existe. Ainda assim, falta o principal ingrediente – execução em escala real.
Guterres aposta em 2026 como o início de uma década decisiva
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que 2026 precisa marcar “o início de uma nova década de implementação”. Ele defendeu que o Acordo de Paris está funcionando, mas cobrou mais velocidade e mais ambição.
Guterres também lembrou que os últimos dez anos foram os mais quentes já registrados e que o mundo já presencia tragédias humanas, destruição ecológica e crises econômicas em tempo real. Ainda assim, ele ressaltou um ponto central: o tratado mudou a trajetória do desastre.
Antes do acordo, a ciência apontava para um cenário acima de 4°C. Agora, segundo Guterres, o mundo está mais próximo de 2,5°C. O número continua alarmante, mas mostra que o pacto interrompeu uma rota de colapso ainda mais rápido.
O problema é que “menos pior” não é um objetivo climático. É só uma forma elegante de dizer que o planeta ainda queima, só que com uma planilha melhor organizada.
COP30, em Belém, reforçou consenso, mas não garante entrega
Segundo Guterres, a COP30, em Belém, mostrou unidade entre os países na defesa do limite de 1,5°C. Ele disse que esse consenso dá esperança, já que medidas sérias agora podem controlar a escala e a duração do aumento de temperatura e permitir a redução futura.
Ao mesmo tempo, o secretário-geral defendeu um “plano de aceleração” para preencher a lacuna entre ambição, adaptação e financiamento – o tripé que, na prática, define se o acordo vira ação ou vira discurso.
Presidência da COP30 afirma que Paris destravou a ação climática
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, afirmou que o Acordo de Paris foi decisivo para destravar a ação climática em um momento em que ela estava “emperrada”. Ele lembrou que, em 2015, a ciência apontava para 4°C, enquanto hoje o cenário se aproxima de 2,5°C.
Mesmo assim, Corrêa do Lago reforçou que o mundo ainda precisa evitar ultrapassar 1,5°C. Para isso, o esforço deve crescer, e não apenas continuar.
O detalhe que incomoda é que “continuar” soa confortável demais para um planeta em emergência.
Christiana Figueres admite: não dá para “resolver”, mas dá para evitar o pior
Christiana Figueres, que era secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) em 2015, se mostrou pessimista quanto ao alcance das metas originais.
Ela afirmou que, mesmo com o Acordo de Paris, já está claro que não é possível “resolver” a mudança climática. No entanto, ela destacou que ainda é possível evitar os piores impactos, desde que o mundo acelere a redução de emissões e a regeneração de ecossistemas naturais.
É um tipo de frase que parece dura, mas também parece realista: o planeta não pede mais promessas. Ele pede contenção.
Como o Acordo de Paris funciona e por que ele ainda importa
O Acordo de Paris estabeleceu um compromisso global e vinculativo para conter a crise climática. O tratado funciona por ciclos de cinco anos, em que cada país apresenta ou atualiza seus planos climáticos. Esses documentos incluem metas de redução de emissões, estratégias de adaptação e diretrizes de longo prazo para orientar economias rumo à neutralidade de carbono.
Além disso, o acordo depende da cooperação internacional, especialmente para apoiar países em desenvolvimento, que sofrem mais com os impactos e respondem por uma parcela menor das emissões acumuladas. O texto também reconhece a responsabilidade de países desenvolvidos em liderar financiamento climático e transferência de tecnologia.
Desde 2024, o tratado conta com o Quadro de Transparência Reforçado, que obriga os países a reportarem ações, avanços e apoios prestados e recebidos. Esses dados alimentam o balanço global, que mede o progresso coletivo.
Na teoria, o sistema é robusto. Na prática, ele continua dependente do mesmo elemento que falha com frequência na história humana: vontade política sustentada por orçamento e urgência. Reportagem da Agência Brasil.
FAQ sobre os 10 anos do Acordo de Paris
O que é o Acordo de Paris e por que ele é tão importante?
O Acordo de Paris é o principal tratado internacional para enfrentar a crise climática. Ele criou um compromisso global para reduzir emissões e limitar o aquecimento, além de estabelecer um mecanismo de revisão periódica de metas. Ele importa porque organiza a ação climática mundial em um sistema de metas, transparência e cooperação, evitando que cada país atue de forma isolada.
Por que a ONU diz que as metas são insuficientes mesmo após 10 anos?
A ONU alerta que, apesar dos avanços, o mundo ainda não está no caminho necessário para limitar o aquecimento a 1,5°C. Isso ocorre porque as metas atuais e a velocidade de implementação não acompanham a urgência científica. Em resumo: existe um pacto, mas a entrega real ainda não acompanha a escala do problema.
O que significa a meta de 1,5°C e por que ela é considerada crítica?
O limite de 1,5°C representa um ponto de segurança relativo para evitar impactos mais severos e potencialmente irreversíveis. Acima disso, aumentam os riscos de eventos extremos, perdas ecológicas, crises hídricas e impactos sociais e econômicos. Portanto, a meta não é simbólica: ela define o grau de sofrimento e instabilidade que o planeta vai experimentar.
Qual é a principal exigência do IPCC para manter 1,5°C ao alcance?
O IPCC indica que as emissões globais precisam cair 43% até 2030. Essa queda exige políticas públicas, investimentos e mudanças estruturais nos setores de energia, transporte, indústria, agricultura e uso do solo. Sem esse corte, o limite de 1,5°C se torna cada vez mais improvável.
Por que 2026 aparece como um ano-chave nas falas da ONU?
A ONU defende que 2026 deve iniciar uma década de implementação, ou seja, de execução real e acelerada das metas. Isso ocorre porque o tempo para ajustes graduais acabou. A partir de 2026, o mundo precisa reduzir emissões em ritmo compatível com a ciência, enquanto amplia adaptação e financiamento climático, principalmente para países mais vulneráveis.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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