Histórias em quadrinhos expõem falha no debate racial nas escolas

Estudo da UFF mostra que HQs fortalecem educação antirracista e expõem falta de planejamento escolar sobre racismo.
Histórias em quadrinhos expõem falha no debate racial nas escolas
Foto: Canva

As escolas falam de racismo apenas em novembro. Depois, silenciam. Enquanto isso, estudantes enfrentam situações de discriminação ao longo do ano inteiro. Um estudo da Universidade Federal Fluminense revela que graphic novels podem romper esse ciclo e fortalecer a educação antirracista na formação de futuros professores. O dado central incomoda: não existe planejamento escolar consistente para tratar da questão racial.

A pesquisadora Fernanda Pereira da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da UFF, investigou como histórias em quadrinhos com narrativas completas — as chamadas graphic novels — estimulam reflexões étnico-raciais no Curso Normal, responsável pela formação inicial de docentes. O resultado aponta uma lacuna estrutural e, ao mesmo tempo, uma possibilidade concreta de transformação.

Racismo fora do calendário escolar

No trabalho de campo realizado no Colégio Estadual Júlia Kubitschek, com turmas do segundo ano do ensino médio formadas majoritariamente por estudantes negros, a pesquisadora constatou que a escola concentra o debate racial no mês da Consciência Negra. Nos demais meses, o tema praticamente desaparece do cotidiano pedagógico.

Além disso, os próprios alunos relataram experiências recorrentes de racismo dentro e fora da escola. Portanto, o silêncio institucional contrasta com a realidade vivida. A ausência de planejamento sistemático revela que a discussão não integra o projeto pedagógico anual.

Essa lacuna também dialoga com outro dado preocupante. A Lei 10.639/2003, que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, não se cumpre em 71% dos municípios brasileiros, segundo pesquisa do Geledés Instituto da Mulher Negra e do Instituto Alana. Muitos docentes classificam o tema como polêmico ou difícil. No entanto, ele integra a própria formação histórica do país.

Graphic novels como estratégia pedagógica

Fernanda decidiu investigar como obras como Carolina, Cumbe e Angola Janga, incluídas no Programa Nacional do Livro e do Material Didático em 2018, poderiam contribuir para a formação docente. Ela partiu de uma constatação pessoal: durante anos, ela mesma não abordou o racismo de forma estruturada em sua trajetória acadêmica.

Ao incorporar histórias de personagens negros, a pesquisadora identificou um potencial pedagógico relevante. As graphic novels combinam texto e imagem, o que amplia o engajamento e facilita a compreensão de temas complexos. Além disso, elas permitem múltiplas camadas de leitura, o que estimula debates interdisciplinares.

Em vez de tratar personagens negros como coadjuvantes, essas obras apresentam protagonismo, liderança e identidade positiva. Assim, a abordagem rompe com perspectivas coloniais que historicamente marginalizaram sujeitos negros e indígenas nos materiais didáticos.

Imersão prática e formação de futuros professores

A pesquisa não se limitou à teoria. A orientadora Walcéa Barreto Alves destacou que o estudo incluiu intervenção prática. A partir da aplicação das graphic novels em sala, os estudantes refletiram sobre suas próprias experiências e discutiram estratégias para levar o debate antirracista às futuras turmas.

Esse movimento revela um ponto estratégico: formar professores que naturalizem o debate racial como parte da prática pedagógica cotidiana. Portanto, a questão deixa de ocupar apenas datas simbólicas e passa a integrar o currículo de forma transversal.

Ao escutar estudantes e observar a rotina escolar, a pesquisa evidenciou que a formação inicial precisa incorporar ferramentas acessíveis e atrativas. As histórias em quadrinhos cumprem esse papel porque unem leveza narrativa e profundidade temática.

Entre leveza estética e profundidade estrutural

As HQs oferecem recursos visuais e textuais que facilitam a leitura para crianças, adolescentes e adultos. Contudo, elas não simplificam o problema. Ao contrário, elas ampliam o debate ao apresentar contextos históricos, sociais e identitários sob múltiplas perspectivas.

Ao inserir esse material no planejamento escolar, a escola assume uma postura ativa diante do racismo estrutural. E, ao fazer isso, ela reconhece que educação antirracista não constitui evento pontual, mas processo contínuo.

A contradição permanece evidente: o país possui legislação específica, produções culturais robustas e pesquisas acadêmicas consistentes. Ainda assim, grande parte das escolas evita o tema. Talvez o desafio não resida na falta de material, mas na disposição institucional para transformar discurso em prática. Reportagem da Agência Brasil.

FAQ sobre histórias em quadrinhos e debate racial

Por que as graphic novels ajudam no debate racial?
Elas combinam linguagem visual e textual, o que amplia o engajamento dos estudantes. Além disso, apresentam personagens negros como protagonistas, fortalecendo identidade e reflexão crítica.

As escolas cumprem a Lei 10.639/2003?
Pesquisa aponta que 71% dos municípios não aplicam plenamente a lei. Muitas escolas limitam o debate ao mês da Consciência Negra, sem planejamento anual estruturado.

O estudo envolveu apenas análise teórica?
Não. A pesquisa incluiu intervenção prática em sala de aula, aplicação de questionários e escuta ativa dos estudantes para avaliar impactos reais na formação docente.

O racismo aparece no cotidiano escolar?
Sim. Estudantes relataram vivências de discriminação dentro e fora da escola. A ausência de debate contínuo dificulta o enfrentamento dessas situações.

Como inserir HQs no planejamento pedagógico?
A escola pode integrar graphic novels em diferentes disciplinas, promover debates interdisciplinares e formar professores para trabalhar a temática de forma contínua, não apenas em datas comemorativas.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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