Podem me julgar: uma crônica sobre a versão atualizada do pronto falei

O “podem me julgar” virou o novo “pronto, falei!”. Mas será sinceridade ou desculpa para opinar sem freio inibitório? Crônica do dia.
Podem me julgar: uma crônica sobre a versão atualizada do pronto falei
Foto: Era Sideral / Direitos Reservados

Uma observação simples inspirou esse texto: a frase “podem me julgar” virou a versão atualizada do clássico “pronto, falei!”.

E ambas funcionam do mesmo jeito. As duas aparecem, quase sempre, como um aviso. Um alerta. Um “agora vai”. Como se o sujeito estivesse prestes a abrir a boca e, junto com a opinião, liberar um bicho que estava preso há dias dentro do peito.

As duas frases despejam opiniões no mundo. Nem sempre solicitadas. Nem sempre bem-vindas. E, curiosamente, quase sempre embaladas em uma suposta sinceridade necessária à manutenção de uma amizade.

Como se amizade fosse um contrato de sinceridade irrestrita.

Como se afeto viesse com uma cláusula dizendo: “o amigo de verdade precisa dizer tudo o que pensa, na hora em que pensa, do jeito que pensa”.

Mas talvez seja apenas isso mesmo: um álibi. Uma desculpa esfarrapada. Um jeito de harmonizar um ponto de vista que sequer resvalou no freio inibitório.

Porque existe uma diferença grande – e meio esquecida – entre ser sincero e ser inconveniente. E o curioso é que, em algum momento da nossa linha do tempo, essa diferença ficou nebulosa. Pior: ela virou motivo de orgulho.

Hoje, muita gente parece acreditar que ser gentil é ser falso. E que ser grosseiro é ser autêntico. A delicadeza passou a soar como covardia. E a falta de tato passou a soar como coragem.

Quem fala o que quer…

O sujeito fala o que quer e ainda tenta sair como virtuoso.

Porque a frase não vem sozinha. Ela vem com escudo. “Pronto, falei!” sempre foi menos uma confissão e mais uma blindagem. E o “podem me julgar” segue a mesma cartilha: o sujeito fala o que quer e, ao mesmo tempo, tenta transformar a inconveniência em virtude.

Como se dissesse: “eu sei que estou sendo um pouco desagradável, mas veja bem… eu sou verdadeiro”.

É o tipo de sinceridade que não pede licença. Não busca contexto. Não procura o melhor momento. Não pensa se vai ajudar ou atrapalhar. Ela só precisa existir.

Porque, no fundo, não se trata de comunicação. Se trata de alívio.

Imagino que o adepto do “pronto, falei” não consiga segurar a opinião sem correr o risco de implodir. A pessoa deve raciocinar algo como: “eu que não vou segurar isso dentro de mim”.

Quem nunca?

O “podem me julgar” funciona igual, só que com um verniz moderno. Uma tentativa de parecer consciente, vulnerável, quase humilde. Mas, na prática, ele dá a mesma permissão: a permissão de falar qualquer coisa e depois colocar a responsabilidade no outro.

Porque repare: quando alguém diz “podem me julgar”, ele não está pedindo julgamento. Ele está tentando desarmá-lo.

Ele está dizendo: “não me cobre consequências”.

Quem já não passou por uma dessas?

Aquele seu amigo que faz questão de apontar o quanto não gostou do seu corte de cabelo. Como se o gosto dele fosse o suprassumo do perfeito. Como se você não entendesse nem disso. De você mesmo.

O sujeito olha para a sua cabeça e faz questão de colocar a opinião dele ali, como se fosse um selo de qualidade.

“Ah, não gostei!”.

Ele falou e pronto. Se aliviou. E isso, aparentemente, basta.

Falo porque sou seu amigo

O mais curioso é que, na maioria das vezes, não existe urgência real. Não existe incêndio. Não existe risco. Existe apenas a necessidade de descarregar. Como se a opinião fosse um gás tóxico acumulado no peito e o sujeito precisasse abrir a válvula antes que o próprio ego explodisse.

E é aí que o freio inibitório entra como um personagem secundário em extinção.

Porque segurar uma opinião não é repressão. Segurar uma opinião é civilização. O freio inibitório não existe para censurar o indivíduo. Ele existe para permitir convivência. Sem ele, a amizade vira arena. E a sinceridade vira pretexto para o sujeito exercitar crueldade em pequenas doses.

Mas, claro, ninguém chama de crueldade. Chama de honestidade. Chama de autenticidade. Chama de “amizade”: “Eu falo porque sou seu amigo”, garante ele.

Essa frase, aliás, merece uma investigação própria. Porque ela carrega um tipo de chantagem emocional muito elegante. Ela tenta convencer o outro de que, se ele se incomodar, o problema está nele. Ele que não sabe lidar. Ele que é sensível demais. Ele que não aguenta a verdade.

Como se amizade fosse uma espécie de consultoria gratuita e obrigatória. Como se todo amigo tivesse o dever moral de dizer tudo o que pensa sobre você, suas escolhas, suas roupas, sua vida, seu cabelo, seu namoro, seu trabalho, sua dieta, sua cara de cansado, seu jeito de rir, seu jeito de existir.

Mas amizade nunca foi isso. Amizade, antes de tudo, sempre foi cuidado. E cuidado inclui saber quando falar, como falar e, principalmente, quando calar.

Porque, no fundo, quando alguém faz questão de dizer que odiou seu corte de cabelo, ele não está defendendo estética. Ele está defendendo território. Ele está lembrando, ainda que sem perceber, que se sente autorizado a opinar sobre você.

O silêncio vale ouro

Como se o gosto dele fosse uma régua moral. E você, um projeto inacabado precisando de ajustes.

E aí eu pergunto: para onde vai o “gosto não se discute” em uma hora dessas, por acaso? Para onde foi aquele básico “se não ajuda, não atrapalha”?

Talvez tenha sido atropelado pelo novo esporte nacional: dar opinião como quem entrega um prêmio. Ou uma sentença. E depois ainda exigir gratidão pela sinceridade.

Porque esse é o ponto mais irônico de todos: a sinceridade, quando vira descarga, ainda quer aplauso.

O sujeito fala o que quer, do jeito que quer, no momento que quer. E ainda quer sair como alguém íntegro. Como alguém forte. Como alguém que “não tem papas na língua”.

Como se papas na língua fossem um defeito.

Quando, na verdade, talvez sejam uma das poucas coisas que ainda impedem a convivência humana de virar um grande comentário de rede social ao vivo.

Mas enfim.

Podem me julgar. Pronto, falei!

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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