O cotidiano permite entender a transitoriedade?

Em novembro se comemora a memória de familiares, amigos, ídolos e pessoas ausentes, o que se pode refletir sobre a jornada da vida na terra e qual o significado dessa herança?
O cotidiano permite entender a transitoriedade?
Foto: Canva

No mês de novembro, muitos ao redor do mundo buscam refletir a vida através da memória de seus mortos, seja dos mais distantes aos quais só se teve proximidade pela conversa dos mais velhos, ou daqueles que estiveram presente desde os anos mais tenros da juventude. Alguns festejam ruidosamente, mas no momento da lembrança vem o silencio que resgata odores, cores e sabores, instantes de luz e glória, outros de sombras e pesar.

A existência é compartilhada como exemplo e o passado rememorado constantemente até se perceber sua contribuição como um contador de histórias. Daquelas que fazem o sol entrar pela luz da cozinha, o som e o cheiro sobre o fogão, o calor do sorriso e o conforto do carinho e dedicação. A mente falseia datas entre um fato ou outro, mas os detalhes não importam porque o desejo de retornar no tempo já foi estabelecido. Muitas vezes desejo de algo desconhecido.

Saudade, esperança, fé ou mesmo a sua falta, une cada ser humano em um sentimento comum de compaixão, pois se nem sempre é perceptível esta união em vida, à morte demonstra solidariedade. Mas conhecer os erros e acertos do passado permitem escolhas adequadas, ou uma simples repetição de padrões até que necessidades atuais os modifiquem? Entender essa pergunta significa perceber quais memórias são guardadas e o quanto elas guiam o comportamento e as escolhas. O Existencialismo de Sartre reflete a vida no aspecto de condição quando diz:

Realmente, só pelo fato de ser consciente das causas que inspiram minhas ações, estas causas já são objetos transcendentes para minha consciência; elas estão fora. Em vão tentaria apreendê-las. Escapo delas pela minha própria existência. Estou condenado a existir para sempre além da minha essência, além das causas e motivos dos meus atos. Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite para minha liberdade pode ser estabelecido exceto a própria liberdade, ou, se você preferir; que nós não somos livres para deixar de ser livres.

Logo, a existência é marcada como ação e memória, presente e passado que recebemos e transmitimos incessantemente enquanto procuramos entender nossa natureza e essência. Não é impossível experimentar um sentimento de proximidade e afinidade com lugares e pessoas desconhecidas, quase que uma lembrança real e desejo de retorno que leva a criação de vínculos emocionais. Celebrar a morte liberta a ânsia por criação e vida, a busca em produzir uma história que possa se somar a todas as outras, uma jornada individual de sentido e pertença.

Saudar diariamente a vida requer entender sua finitude e de que jamais se estará novamente nesse tempo e espaço. Assim, o que existe de mais precioso é o tempo que se doa as pessoas, ao trabalho e a si mesmo. Cada ação perpetua nossa história através da lembrança de parentes, amigos e até aquelas pessoas desconhecidas que num pequeno rompante decidimos ajudar. A vontade de imortalidade frente ao desconhecido vai marcando o caminho na tentativa de assegurar o retorno como memória, assim como o momento que antecede a travessia de uma longa ponte em direção à outra realidade, livre do esquecimento

Sergio Bosco

Bacharel em Teologia pela PUC-SP com Extensão universitária em Doutrina social da Igreja pela Faculdade Dehoniana de Taubaté. Escritor, pesquisador e ensaísta.

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