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O joio e o trigo: uma simples fábula ou um fator existencial?
Há muito na história, a raça humana se utiliza do artifício de contos, fábulas e lendas para transmitir ideias que compõe o arcabouço ético desejado pelo autor. Às vezes de origem tão antiga que desconhecemos seus redatores, às vezes tão atual que desperta a sensação de proximidade e intimidade, mas até que ponto pode se supor que são redigidos apenas pela determinação de uma moral social na busca de adequar um individuo a um grupo, ou carregam consigo a percepção de um estado latente do próprio indivíduo: o conceito da coexistência e singularidade do bem e do mal intimo?
Os chineses expressaram sua consideração da natureza dual humana através da lenda do Rei Macaco, os mesopotâmios com a Epopeia de Gilgamesh e os Israelitas na celebre narração da criação na Torah (fruto proibido). Em todas as culturas podemos encontrar referências à existência de um confronto frente aos acontecimentos, um debate silencioso interno onde se enfrenta a virtude contra a avareza, o individualismo contra a cooperatividade, a violência contra a razão. Algumas levam a acreditar que se trata de simples escolhas, outras nas impurezas pertencentes à espécie, mas todas são uníssonas na crença da redenção e na superação final evolutiva.
Apesar dos mistérios envolvendo como exatamente esses fatos se dariam, ao interlocutor é pedida apenas uma coisa: fé. Em muitas não se tenta convencer de que o desfecho será tranquilo ou seguro, nem ao menos que será sem amarguras ou tropeços, mas que simplesmente a consciência irá levar o viajante à sabedoria. O saber trás a tranquilidade e a certeza de novos caminhos, novas descobertas que orientam as opções para um fluxo ascendente, pela dignidade da vida onde não importa o início ou o fim, mas o transcorrer.
Essa escolha deve ser individual e assim levar a uma nova etapa de atitudes, uma nova época para só então se tornar coletiva e render frutos de prosperidade. Desnudando o verdadeiro potencial criativo e criador humano na administração de suas necessidades e do ecossistema. E é exatamente este ponto que todas as fábulas, contos e parábolas chegam a seu apogeu interpretativo: o desconhecido. Não existe a preocupação do além, mas apenas o momento presente, o aprendizado da questão proposta, o entendimento do papel singular que cada ser desempenha em sua história deixando assim o desfecho como escolha, uma opção intima.
O tema central corresponde a uma parábola – uma narrativa alegórica que transmite uma mensagem indireta através de uma comparação – onde Jesus traça um paralelo entre o caminho do bem (vida), o do mal (morte), as escolhas que são individuais e suas consequências, questão central em seu ministério que convocava a uma conversão (vida/luz) e ao arrependimento (morte/sombras).
“Explica-nos a parábola do joio no campo. Jesus respondeu: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem (Jesus/palavra). O campo é o mundo (individuo). A boa semente são os filhos do Reino (vida/luz). O joio são os filhos do Maligno (morte/sombras). O inimigo, que o semeia, é o demônio (ilusões). A colheita é o fim do mundo (desfecho/ação). Os ceifadores são os anjos (consciência). E assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo (transformação), assim será no fim do mundo (existência). O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça”. (Mateus 13,36-43)
Aqui é onde se definem os dois polos da consciência, pois um (trigo) produzira alimento onde irá sustentar e nutrir, o outro (joio) envenenar e danificar não medindo consequências. Mais que uma luta por dominância, uma busca por equilíbrio e estabilidade emocional onde não importam as circunstâncias, mas a resposta que traga a tão almejada paz e tranquilidade existencial. Aqueles que escolhem coexistir e contribuir pacificamente com a realidade produzem o aqui e agora, os demais operam em suas ilusões aguardando o tempo do despertar.
Sergio Bosco
Bacharel em Teologia pela PUC-SP com Extensão universitária em Doutrina social da Igreja pela Faculdade Dehoniana de Taubaté. Escritor, pesquisador e ensaísta.
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