Ataque à infância: o impacto do extremismo político no desenvolvimento infantil

Discursos extremistas e políticas negacionistas afetam o direito das crianças a uma infância plena. Com efeitos no desenvolvimento infantil.
Ataque à infância: o impacto do extremismo político no desenvolvimento infantil
Foto: Canva

Nos últimos anos, o Brasil tem experimentado uma crescente polarização política. O discurso de ódio, a negação da ciência e o enfraquecimento das políticas públicas voltadas para a infância têm sido dominantes. Esse extremismo, especialmente no âmbito das políticas educacionais e culturais, tem afetado diretamente o desenvolvimento das crianças.

É importante frisar que este não é um tema partidário, mas uma análise sobre os efeitos concretos das decisões políticas nas crianças. O que elas têm acesso, o que lhes é retirado e como elas são tratadas pela sociedade se tornam questões centrais. Para os profissionais que lidam com o desenvolvimento infantil, como os fonoaudiólogos, os impactos se tornam visíveis dentro dos consultórios.

Desinformação e seus reflexos no cuidado infantil

Por exemplo, movimentos de extrema direita, ao promoverem pautas anticientíficas, comprometem diretamente o acesso a diagnósticos precoces, tratamentos adequados e até à vacinação. Pois esses fatores afetam diretamente a saúde física, mental e comunicativa das crianças.

Por exemplo, quando uma família decide não buscar avaliação fonoaudiológica devido ao medo de um “rótulo” ou adia a intervenção precoce acreditando que isso seja “invenção da indústria da saúde”, as consequências tornam-se reais. A criança enfrenta atraso no desenvolvimento e sofrimento psíquico, o que, inevitavelmente, prejudica o seu crescimento.

A infância como alvo e palco de narrativas distorcidas

Outro efeito alarmante do extremismo político é o uso da infância como palco de disputas ideológicas. Frequentemente, tentam silenciar discussões sobre diversidade, equidade e afetividade nas escolas, alegando uma falsa “proteção”. Na prática, isso acaba promovendo apagamentos importantes na formação das crianças.

Esse tipo de censura prejudica a formação integral da criança, seu repertório linguístico e sua capacidade de lidar com a diferença. No consultório, isso se reflete quando a criança não tem espaço para expressar seus sentimentos ou quando os pais chegam aflitos porque a escola cortou projetos de empatia e escuta ativa. Em consequência, a linguagem se compromete, e o desenvolvimento também.

O direito de ser criança está em risco

Atualmente, o governo tem promovido cortes significativos nas áreas de cultura, ciência e educação básica. As políticas públicas voltadas para a primeira infância, como programas de saúde da família e incentivo à leitura, têm sido descontinuadas. Essa postura revela um desprezo pela infância como prioridade nacional.

Ao mesmo tempo, enquanto discursos inflamados dominam o debate público, questões essenciais, como fome, evasão escolar e acesso à educação inclusiva, acabam ficando em segundo plano. Em última instância, o direito de ser criança está sendo ameaçado.

Como proteger a infância em tempos de extremismo?

Embora não existam respostas fáceis, alguns caminhos são possíveis. Primeiramente, profissionais devem manter um olhar clínico sensível ao contexto sociopolítico da criança. Além disso, é fundamental ampliar o diálogo com os responsáveis, oferecendo informações bem fundamentadas e acolhendo as preocupações da família.

Também é necessário reconhecer que a infância não é neutra. Ela é profundamente afetada por decisões políticas, que impactam diretamente seu desenvolvimento. Portanto, é essencial adotar uma postura ética, comprometida com o cuidado ampliado, que considere o brincar, o afeto, o tempo da escuta e o direito à diferença como pilares inegociáveis do desenvolvimento infantil.

Um olhar cuidadoso e ético

É importante ressaltar que proteger a infância não é apenas uma questão de cuidado físico. Antes de mais nada, deve-se garantir que a criança tenha liberdade para brincar, aprender e se expressar. Profissionais devem, portanto, adotar uma postura ética, comprometida com o cuidado ampliado, que valorize o brincar, o afeto, o tempo da escuta e o direito à diferença como pilares inegociáveis do desenvolvimento infantil.

FAQ sobre como o extremismo político afeta o desenvolvimento infantil

Como o discurso político afeta o desenvolvimento infantil?
Quando políticas públicas limitam o acesso a saúde, educação e cultura, as crianças perdem oportunidades essenciais para seu desenvolvimento.

É possível proteger a infância da polarização ideológica?
Sim, profissionais podem oferecer escuta ativa, informação qualificada e práticas clínicas que respeitem o tempo e as necessidades da criança.

Falar sobre política é papel da fonoaudióloga?
Não se trata de apoiar partidos, mas de discutir políticas públicas. O cuidado infantil é moldado por decisões que impactam diretamente o desenvolvimento da criança.

O que os pais podem fazer nesse cenário?
Os pais devem buscar fontes confiáveis, dialogar com profissionais da saúde e educação e proteger o espaço do brincar e da escuta na rotina da criança.

Existe neutralidade na infância?
A infância não é neutra. Ela é influenciada por discursos, afetos e decisões políticas. Embora fingir neutralidade é, muitas vezes, endossar silenciamentos.

Rita Paula Cardoso

Fonoaudióloga clínica da infância, especializada no desenvolvimento da linguagem. No blog Fala Expressa aborda temas relacionados ao desenvolvimento da fala, linguagem, inclusão e bilinguismo.

Especialidades: Fonoaudiologia

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