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Sharenting: quando o amor vira conteúdo
O celular vibra sobre a mesa do café. A criança, ainda com o rosto sujo de pão e manteiga, sorri sem saber por quê. O adulto não responde ao sorriso. Ajusta o enquadramento. A luz entra melhor pela janela. Clique. Em segundos, a imagem já não pertence mais àquele momento, nem àquela mesa, nem àquela infância. O sharenting começa exatamente aí: não por descuido, mas quando o afeto perde presença e vira registro.
O sharenting não nasce da negligência, mas do amor atravessado pela lógica das redes. Na tentativa de compartilhar orgulho, presença e vínculo, muitos adultos transformam a infância em um arquivo público permanente. Antes mesmo de desenvolver consciência de si, a criança já carrega uma identidade digital construída por terceiros.
O que está por trás do sharenting
O termo surge da junção de share e parenting, mas sua prática ultrapassa qualquer definição técnica. Pais e responsáveis publicam imagens, vídeos e relatos íntimos como forma de registrar a vida. No entanto, a ciência do comportamento explica por que isso escala. O cérebro adulto responde ao engajamento como recompensa. Curtidas reforçam padrões. Comentários criam hábito. Assim, o sharenting deixa de ser exceção e se transforma em rotina.
Enquanto isso, a criança permanece fora da decisão. Ela não escolhe. Ela não consente. Ainda assim, sua imagem circula.
A cena se repete em versões diferentes. O primeiro dia de aula vira story. O choro vira legenda engraçada. A dificuldade vira narrativa pública. O que antes ficava restrito à intimidade familiar passa a existir para um público invisível. A crítica contemporânea observa que o sharenting não documenta apenas a infância. Ele a formata.
Quando tudo vira conteúdo, a experiência perde o direito de ser imperfeita, passageira ou esquecida.
A identidade digital antes da identidade emocional
Do ponto de vista psicológico, a infância funciona como um território de experimentação do eu. A criança testa comportamentos, emoções e limites. Porém, quando o adulto fixa esses momentos em publicações permanentes, ele congela processos que deveriam ser transitórios. A ciência do desenvolvimento aponta que autonomia emocional cresce quando o indivíduo controla sua própria narrativa. O sharenting antecipa essa narrativa e a terceiriza.
Além disso, a exposição constante cria um aprendizado silencioso. A criança percebe que sua existência gera resposta externa. Dessa forma, o afeto se mistura com performance. O amor se associa à visibilidade.
Em uma leitura espiritual, o sharenting toca em um ponto sensível: o respeito ao tempo da alma. Tradições antigas sempre trataram a infância como território protegido do olhar coletivo. O excesso de exposição rompe esse campo simbólico. A criança perde o direito ao silêncio, ao mistério e ao esquecimento.
Ou seja, nem tudo o que é vivido precisa ser mostrado. A espiritualidade contemporânea não pede isolamento digital, mas consciência. Estar presente não exige prova pública.
Riscos reais que não são exagero
Para além da reflexão simbólica, existem riscos objetivos. Imagens infantis circulam fora de contexto, alimentam bancos de dados, treinam inteligências artificiais e podem ser reutilizadas de formas imprevisíveis. A ciência da segurança digital já reconhece o roubo de identidade infantil como um problema crescente.
Depois da publicação, o controle se dissolve. A intenção não acompanha o alcance.
Existe uma pergunta que atravessa todo o sharenting: quem se beneficia dessa exposição? A criança ou o adulto? Quando a resposta envolve validação, pertencimento digital ou engajamento, o gesto deixa de ser neutro. Ele passa a revelar a ansiedade adulta diante do esquecimento social.
O objetivo não é acusae pais, mas apontar um sintoma cultural. Amor não deveria precisar de plateia.
Sharenting consciente como gesto de maturidade
Assim, falar em sharenting consciente não significa demonizar as redes, mas reintroduzir limite. Reduzir frequência, restringir público, evitar situações íntimas e imaginar o impacto futuro são escolhas simples que preservam algo essencial: a dignidade da experiência infantil.
No fim, o sharenting devolve sempre à mesma pergunta silenciosa: o adulto está compartilhando para lembrar ou para não desaparecer?
FAQ sobre sharenting
Sharenting é sempre prejudicial?
Não. Ele se torna problemático quando ocorre em excesso, sem critério e sem considerar impactos psicológicos, éticos e futuros sobre a criança.
Crianças têm direito à privacidade digital?
Sim. Mesmo sem capacidade de consentimento, a criança é sujeito de direitos, incluindo imagem, privacidade e proteção de dados.
O sharenting pode afetar a identidade no futuro?
Pode. A exposição precoce pode gerar constrangimento, perda de controle da própria narrativa e associação entre afeto e validação externa.
Existem riscos legais envolvidos?
Sim. O debate jurídico cresce e já existem casos em que filhos questionam judicialmente a exposição excessiva feita por responsáveis.
Como praticar um sharenting mais consciente?
Refletindo antes de publicar, limitando público e frequência, evitando conteúdos íntimos e considerando como aquela imagem será percebida no futuro.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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