A infância como conteúdo na economia da atenção

Na economia da atenção, a infância vira dado. Crianças produzem informações involuntárias que alimentam plataformas e algoritmos.
A infância como conteúdo na economia da atenção
Foto: Canva

A infância entrou na economia digital sem contrato, sem consentimento e sem direito de saída. Na lógica atual das redes, crianças não aparecem apenas como personagens de registros afetivos. Elas operam, silenciosamente, como produtoras involuntárias de dados. Essa é a tese central: o problema do sharenting não se limita a escolhas individuais, mas se insere em um sistema que transforma qualquer experiência humana em matéria-prima informacional.

Na economia da atenção, tudo o que é visível gera valor. Inclusive a infância.

O que é a economia da atenção

A economia da atenção descreve um modelo em que plataformas competem pelo tempo, foco e engajamento dos usuários. Quanto mais atenção uma publicação gera, mais dados ela produz, mais previsível o comportamento do usuário se torna e mais rentável o sistema opera. Nesse modelo, imagens, vídeos e histórias não circulam apenas como expressão pessoal. Elas alimentam algoritmos.

Quando adultos publicam conteúdos envolvendo crianças, eles não apenas compartilham momentos. Eles inserem a infância em um circuito econômico baseado em visualização, retenção e resposta emocional.

Crianças como produtoras involuntárias de dados

Cada foto, legenda ou vídeo envolvendo uma criança gera metadados: horários, localização, padrões de interação, reações emocionais do público. Mesmo sem intenção comercial, essas informações treinam sistemas, refinam segmentações e fortalecem modelos preditivos. A criança não escolhe participar desse processo, mas participa.

A crítica contemporânea aponta um paradoxo ético claro: sujeitos sem capacidade de consentimento produzem valor econômico indireto para plataformas que jamais prestarão contas a eles.

Uma cena cotidiana que parece inofensiva

O vídeo curto mostra uma criança rindo, tropeçando ou reagindo a algo simples. O conteúdo circula porque desperta ternura. Comentários elogiam. O algoritmo entrega mais. A cena não carrega violência nem exposição explícita. Ainda assim, ela cumpre uma função precisa: reter atenção.

O sistema não distingue afeto de engajamento. Ele apenas contabiliza.

Por que a infância engaja tanto

A ciência do comportamento explica parte do fenômeno. Imagens infantis ativam respostas emocionais automáticas associadas a cuidado, proteção e empatia. Esses estímulos aumentam tempo de permanência e interação. Plataformas reconhecem esse padrão e o amplificam.

Assim, a infância se torna um dos conteúdos mais eficientes da economia da atenção. Não por perversidade explícita, mas por eficiência algorítmica.

O deslocamento da responsabilidade

Focar apenas na decisão dos pais simplifica um problema estrutural. O sistema incentiva a exposição, recompensa a visibilidade e normaliza a transformação da vida privada em fluxo público contínuo. O sharenting surge, então, menos como desvio moral e mais como adaptação cultural.

A crítica aqui não acusa indivíduos. Ela observa um modelo que lucra com a dissolução progressiva da fronteira entre intimidade e mercado.

Consequências invisíveis para o futuro

O impacto dessa exposição não se limita ao presente. Dados infantis permanecem armazenados, replicados e reprocessados. A criança cresce enquanto sua história digital já existe, estruturada por decisões alheias. A identidade futura passa a dialogar com um passado público que não foi escolhido.

Na prática, isso cria uma assimetria inédita: adultos com histórico digital controlado convivem com crianças cuja presença online nasce antes da autonomia.

Espiritualidade e o esvaziamento da experiência

Sob uma lente espiritual, a economia da atenção fragmenta a experiência humana. O valor do momento deixa de estar na vivência e passa a residir na sua capacidade de gerar resposta externa. A infância, que tradicionalmente ocupa o espaço do espontâneo e do não performativo, perde proteção simbólica.

Quando tudo precisa ser visto, pouco pode ser realmente vivido.

Do afeto ao ativo digital

A transformação da infância em conteúdo não exige monetização direta. Ela acontece quando o afeto se converte em ativo informacional. Cada registro reforça a lógica de que existir significa circular. Nesse cenário, proteger a infância exige mais do que moderação individual. Exige consciência sistêmica.

A pergunta que permanece não é se os pais amam seus filhos, mas que tipo de sistema aprende a lucrar com esse amor.

FAQ sobre a infância na economia da atenção

O que significa economia da atenção?
É um modelo econômico em que plataformas digitais competem pelo tempo e engajamento dos usuários, transformando atenção em dados e lucro.

Como crianças produzem dados sem consentimento?
Imagens, vídeos e interações envolvendo crianças geram metadados e padrões comportamentais usados por algoritmos, mesmo sem intenção comercial.

O problema está apenas no sharenting?
Não. O sharenting funciona como porta de entrada para um sistema maior que incentiva e recompensa a exposição contínua da vida privada.

Por que conteúdos com crianças engajam tanto?
Porque ativam respostas emocionais automáticas ligadas a cuidado e empatia, aumentando tempo de visualização e interação.

Existe impacto futuro dessa exposição?
Sim. Dados infantis permanecem armazenados e podem influenciar identidade, privacidade e autonomia digital na vida adulta.

Rogério Victorino

Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.

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