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Identidade digital e infância: como as redes sociais moldam o eu emocional
Vivemos em um tempo em que a identidade não é mais apenas uma construção interna ou orgânica; ela agora se forma, em grande parte, fora do corpo, fora da experiência direta. A digitalização de nossas vidas trouxe um fenômeno paradoxal: antes mesmo de termos uma vivência emocional consolidada, já estamos moldando nossa identidade de forma pública, exposta e digital. A criança, desde os primeiros momentos de vida, é inserida em um espaço onde o eu emocional e o eu digital se confundem, se sobrepõem e, muitas vezes, se distorcem. A nossa identidade digital passa a existir muito antes de o eu emocional se afirmar plenamente. E isso muda não só a percepção de si, mas o próprio sentido de pertencimento e autenticidade.
Através das redes sociais, a criança e o jovem agora estão construindo a própria identidade não mais na privacidade de suas experiências internas, mas na visibilidade imposta pelas plataformas digitais. O conteúdo gerado e compartilhado, as curtidas e comentários, criam uma realidade paralela onde o valor do eu é medido, não pela reflexão interna, mas pela aceitação externa. A identidade digital, portanto, precede o eu emocional. Mas qual o impacto disso para a construção da verdadeira identidade humana? Como isso afeta os mais jovens, que mal começaram a viver suas experiências emocionais autênticas?
A construção da identidade no digital: uma nova fronteira
A criação da identidade, antes um processo intimamente ligado à vivência pessoal, agora se faz em uma arena pública e digital. O fenômeno é especialmente evidente nas crianças e adolescentes, cujas primeiras lembranças de “serem alguém” são frequentemente digitais. Desde os primeiros dias de vida, com pais que compartilham fotos e vídeos de seus filhos, a criança já entra em uma exposição constante. A identidade digital começa a ser formada por algoritmos e curtidas muito antes de ela desenvolver um senso claro de quem é no mundo real.
Essa nova construção de identidade coloca a criança em uma posição vulnerável, pois ela ainda não tem as ferramentas emocionais ou cognitivas para lidar com a quantidade de informações externas que moldam sua autoimagem. O reconhecimento virtual, por meio de curtidas e seguidores, substitui, em muitos casos, a validação emocional que a criança recebe de seus pais e de sua comunidade imediata. Em vez de formar a identidade com base em suas próprias experiências e sentimentos, ela a forma com base no reflexo que vê nas redes sociais.
Quando o virtual precede o real: o impacto nas relações familiares
O impacto da identidade digital na infância não se restringe apenas à própria formação do eu. Ele se reflete também nas dinâmicas familiares. Pais que compartilham a vida de seus filhos nas redes sociais estão, de certa forma, antecipando a construção dessa identidade para o outro, antes mesmo que a criança tenha a oportunidade de decidir como quer se ver ou como deseja ser vista.
Este fenômeno está profundamente ligado ao conceito de sharenting, onde as crianças são expostas nas redes sociais sem o seu consentimento, muitas vezes para atender a uma necessidade de validação dos pais. Mas o que é realmente compartilhado? A verdadeira experiência da infância ou uma versão idealizada e cuidadosamente editada da vida familiar? Ao permitir que a identidade da criança se forme sob os olhos de um público digital, os pais acabam criando um espaço onde o eu emocional da criança é forçado a competir com o eu digital, em uma competição desigual.
O dilema da autenticidade: ser ou parecer?
A construção de identidade sempre teve um componente fundamental: a autenticidade. Ser quem se é, em seus próprios termos, sem a necessidade de validação externa. No entanto, na era digital, a autenticidade começa a ser substituída por uma versão mais editada e pública do self. A identidade digital, por sua natureza, não é apenas sobre ser, mas sobre parecer ser algo para os outros. Esse “parecer” ocupa um espaço central nas redes sociais, onde as interações são constantemente filtradas, editadas e cuidadosamente moldadas para atender às expectativas alheias.
Em vez de se conectar com os outros de maneira genuína, muitos buscam a conexão baseada na imagem que projetam. A busca por curtidas e validação cria uma falsa percepção de autoestima, onde o valor de uma pessoa (ou de uma criança) é medido pelas métricas de aprovação de um público virtual. Esse fenômeno é ainda mais acentuado para as gerações mais jovens, que estão em processo de formação emocional. Eles crescem em um ambiente onde o reconhecimento de seu valor está atrelado ao que os outros pensam e não ao que eles sentem de verdade.
O vazio da identidade digital: o que falta na construção do self?
O grande problema da construção de uma identidade baseada exclusivamente no digital é o vazio que ela cria. A identidade digital não é capaz de fornecer as bases emocionais profundas que sustentam o verdadeiro eu. Ela pode ser cheia de imagens e interações, mas carece da complexidade emocional e da profundidade que vem da experiência vivida. A construção do self no mundo real envolve falhas, crescimento, aprendizado e, mais importante, a aceitação das próprias imperfeições. Já a identidade digital, muitas vezes, exige uma perfeição que não condiz com a realidade.
O problema surge quando a busca pela perfeição virtual começa a afetar a percepção de si no mundo real. Em vez de aprender com os erros, muitos buscam construir uma versão “ideal” de si mesmos, sem espaço para o crescimento emocional genuíno. Isso cria uma desconexão fundamental, onde o verdadeiro eu fica perdido atrás de filtros e expectativas sociais.
FAQ sobre a identidade digital antes do eu emocional
O que é identidade digital?
Identidade digital é a construção do self baseada nas interações e representações virtuais, como perfis em redes sociais, fotos compartilhadas e interações online. Ela forma uma versão pública do indivíduo, muitas vezes dissociada da experiência emocional real.
Como a identidade digital afeta a infância?
As crianças crescem em um mundo onde suas vidas são compartilhadas online desde cedo. Elas começam a construir sua identidade com base no que é postado, curado e validado pelos outros, antes mesmo de desenvolver um senso sólido de quem são internamente.
Qual é o impacto do sharenting na construção da identidade infantil?
O sharenting coloca as crianças em uma posição onde sua identidade é moldada sem seu consentimento, com base no que os pais compartilham nas redes sociais. Isso impede que elas desenvolvam uma identidade autêntica, já que sua imagem é projetada para um público virtual.
Como o reconhecimento nas redes sociais influencia a identidade das crianças?
O reconhecimento virtual, como curtidas e comentários, pode substituir a validação emocional real, fazendo com que as crianças baseiem seu valor na aprovação externa, em vez de desenvolverem um senso interno de autoestima.
Qual é o papel da autenticidade na formação da identidade?
A autenticidade é fundamental para a formação de uma identidade sólida, baseada em experiências e sentimentos genuínos. A busca pela autenticidade é prejudicada quando a identidade digital se torna mais importante do que a vivência emocional real e privada.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
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