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Infância e a pressa em medicar: o impacto da busca rápida por soluções químicas
Em atendimento clínico, tenho me deparado com um aumento expressivo nos diagnósticos infantis, e, com ele, uma tendência crescente à medicalização precoce. Remédios que deveriam ajudar a criança a se ajustar à vida são, muitas vezes, a solução imediata para comportamentos que, em muitos casos, são apenas parte do processo natural de desenvolvimento. Mas será que a pressa para medicar está realmente contribuindo para o bem-estar das crianças?
A ansiedade dos pais tem um peso significativo nesse processo. Quando um diagnóstico é feito e o tratamento, por mais simples que seja, é iniciado, muitos pais se sentem mais tranquilos. Há uma sensação de que algo está sendo feito, algo visível, como se medicar fosse uma resposta imediata e suficiente. Esse pensamento, contudo, não leva em consideração a complexidade dos comportamentos infantis, que muitas vezes são mais sutis e multifacetados do que a simples prescrição de uma pílula.
Opção única
Esse movimento de medicalizar parece fazer sentido em um mundo onde as soluções rápidas se tornam cada vez mais comuns. A pressão social para resolver problemas comportamentais da maneira mais eficiente possível faz com que muitas vezes a medicação seja vista como a única opção. Mas o que esquecemos é que cada criança tem um tempo único de evolução. O que pode ser eficaz para uma, pode não ser para outra — e o uso indiscriminado de medicamentos pode ser um grande erro.
A popularização do uso da ritalina, por exemplo, durante os anos 2000, exemplifica a tendência de prescrever rapidamente medicação para TDAH. A necessidade de resolver rapidamente levou a uma verdadeira epidemia de diagnósticos e tratamentos, com uma consequente proliferação do uso do medicamento, algo que foi amplamente criticado e investigado pela mídia e órgãos especializados.
Segundas opiniões
Por outro lado, quando se trata de doenças graves ou de intervenções mais complexas, a recomendação é sempre buscar uma segunda opinião, como uma forma de garantir que a decisão tomada seja realmente a mais adequada. Então, por que, no caso dos transtornos emocionais e comportamentais infantis, muitas vezes aceitamos de forma tão fácil a recomendação de medicação imediata? Será que a pressa em obter um diagnóstico e uma solução rápida está prejudicando a infância das crianças, que precisa, antes de tudo, de tempo, paciência e escuta?
É fundamental que os pais e profissionais compreendam que, ao lidar com o comportamento infantil, a pressa não é aliada. Cada criança precisa de seu espaço para se expressar, sem ser rotulada imediatamente. O ritmo dela deve ser respeitado, e a escuta ativa deve sempre vir em primeiro lugar, antes de decisões drásticas.
FAQ sobre a pressa de medicar na infância
Por que tantas crianças estão sendo medicadas?
A busca por soluções rápidas, impulsionada pela ansiedade dos pais e pela confiança imediata em diagnósticos médicos, tem feito com que o uso de medicamentos seja visto como a forma mais eficaz de tratar comportamentos infantis.
Os medicamentos sempre trazem danos às crianças?
Não. Em alguns casos, o uso de medicamentos pode ser necessário e eficaz, mas deve ser feito com cautela e após uma avaliação cuidadosa das necessidades da criança.
Qual é o principal risco de medicar uma criança sem o devido tempo de observação?
A principal preocupação é que a medicação pode mascarar comportamentos naturais, dificultando a compreensão do real desenvolvimento da criança e até prejudicando sua vitalidade.
Por que a ritalina se tornou um símbolo dessa discussão?
A ritalina foi largamente prescrita para crianças com diagnóstico de TDAH, o que levou a um aumento significativo no consumo do medicamento, gerando críticas sobre o uso excessivo e seu impacto nas crianças.
Devo buscar uma segunda opinião antes de aceitar a medicação para meu filho?
Sim, como em qualquer diagnóstico importante, buscar a opinião de outros profissionais contribui para uma decisão mais segura e informada sobre o tratamento da criança.
Rita Paula Cardoso
Fonoaudióloga clínica da infância, especializada no desenvolvimento da linguagem. No blog Fala Expressa aborda temas relacionados ao desenvolvimento da fala, linguagem, inclusão e bilinguismo.
Especialidades: Fonoaudiologia
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