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O boom dos “neuros”: entre ciência, moda e promessas rápidas
Nos últimos anos, uma onda crescente de profissionais tem adotado o prefixo “neuro” em seus títulos: neuropsicopedagogos, neuropsicanalistas, neuroterapeutas, e até neurofonoaudiólogos. Mas o que, de fato, esse “neuro” representa? Em algumas áreas da medicina, como neurologistas e neurocirurgiões, o termo é claro e fundamentado no sistema nervoso. Porém, quando aplicamos o “neuro” em outras profissões, a questão se torna mais complexa.
Do ponto de vista médico, o “neuro” está associado diretamente ao sistema nervoso. Profissionais como neurologistas e neurocirurgiões lidam com diagnósticos, tratamentos e intervenções práticas nesse campo. No entanto, em áreas como educação, psicologia e fonoaudiologia, o “neuro” é frequentemente usado para aproximar essas práticas das descobertas da neurociência, que estuda como o cérebro aprende, organiza a linguagem, responde às emoções e se adapta ao longo do tempo.
O uso do prefixo “neuro” e a busca por legitimação
Falo, por exemplo, da minha experiência pessoal. Ao longo da minha carreira, participei de cursos que me ajudaram a entender melhor as conexões entre cérebro e linguagem. Contudo, esses estudos não me qualificam a usar o título de “neurofonoaudióloga”, já que tal especialização não existe formalmente. O uso desse termo, embora atraente, não é legítimo em termos profissionais, e prefiro dialogar com especialistas que possuem essa formação como área central de atuação.
A sedução de novas técnicas e promessas
É visível a corrida de profissionais e instituições que promovem técnicas revolucionárias e “remédios milagrosos” para tratar problemas complexos, como o TDAH ou até a obesidade. A ansiedade por respostas rápidas leva muitas famílias a se atraírem por tais promessas. No entanto, como clínica, sei que a pressa raramente traz bons resultados. A busca por um diagnóstico fechado ou por um método milagroso pode obscurecer outras possibilidades de tratamento, mais eficazes a longo prazo. É por isso que insisto na importância de se dedicar ao tempo de cada criança e fazer uma investigação mais profunda e cuidadosa.
A mercantilização do “neuro”: um selo de legitimidade?
O uso excessivo do prefixo “neuro” também tem uma dimensão mercadológica. Ele virou um selo de credibilidade, como se qualquer prática que carregue esse termo fosse automaticamente respaldada pela ciência. Embora algumas dessas práticas sejam legítimas, muitas vezes a neurociência é usada mais como uma estratégia de marketing do que como uma base sólida para as técnicas aplicadas. A pergunta que devemos fazer é: quais evidências científicas realmente sustentam essas práticas? E o que é apenas uma apropriação do termo para gerar confiança?
Casos sérios e promessas vazias: como distinguir?
É importante destacar que, apesar do uso excessivo do termo, existem profissionais sérios que fazem uso da neurociência de forma adequada e embasada. No entanto, há também aqueles que se aproveitam da popularidade do termo “neuro” para atrair pacientes e gerar lucros. A chave está em observar os resultados, a ética e a clareza na comunicação com os pais e famílias. O título por si só não deve ser o critério principal para avaliar a qualidade do trabalho.
FAQ sobre os “neuros”
Qual é a diferença entre neurologista e neuropsicólogo?
O neurologista é um médico especializado em diagnosticar e tratar doenças do sistema nervoso. Já o neuropsicólogo investiga funções cognitivas e emocionais, sem prescrever medicamentos.
O que faz um neuropsicopedagogo?
O neuropsicopedagogo combina a psicopedagogia com os estudos da neurociência para tratar questões relacionadas à aprendizagem, memória e atenção.
Existe uma especialidade chamada neurofonoaudiologia?
Não, a fonoaudiologia se dedica ao estudo da linguagem e cognição, mas o termo “neurofonoaudiologia” não é reconhecido como especialidade oficial.
Todo profissional que usa o termo “neuro” tem respaldo científico?
Não. Embora algumas áreas realmente se baseiem em neurociência, outras utilizam o prefixo como forma de marketing. É importante investigar a formação do profissional e sua abordagem.
Como os pais podem avaliar a confiabilidade de um profissional que usa o termo “neuro”?
Os pais devem verificar a formação do profissional, a presença de regulamentação pela profissão e se as práticas aplicadas se baseiam em evidências científicas comprovadas.
Rita Paula Cardoso
Fonoaudióloga clínica da infância, especializada no desenvolvimento da linguagem. No blog Fala Expressa aborda temas relacionados ao desenvolvimento da fala, linguagem, inclusão e bilinguismo.
Especialidades: Fonoaudiologia
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