Artigos
Por que as pessoas curtem posts repetitivos nas redes mesmo sem gostar do conteúdo
Muita gente afirma que não aguenta mais ver fotos de treino, pratos idênticos e frases motivacionais repetidas nas redes sociais. Ainda assim, esse tipo de conteúdo continua recebendo curtidas, comentários e reações com frequência. A contradição parece simples: se ninguém gosta, por que todo mundo engaja?
A resposta passa menos por interesse real e mais por um mecanismo social discreto, mas poderoso: a polidez digital. Na prática, curtidas funcionam como uma forma rápida de manter vínculos, demonstrar presença e evitar atritos. Em vez de expressar admiração, muitas reações servem para sustentar relações, mesmo quando o conteúdo em si não desperta entusiasmo.
Curtida virou gesto de convivência
Nas redes, a curtida se tornou um sinal mínimo de interação. Ela comunica “eu vi”, “eu me importo” ou “estou aqui”, mesmo quando a pessoa não tem nada a dizer. Por isso, o gesto funciona como uma espécie de cumprimento social. Assim como alguém sorri por educação no elevador, muitos usuários curtem por educação no feed.
Além disso, o custo da curtida é baixo. Ela não exige tempo, não exige reflexão e não exige exposição emocional. Ao mesmo tempo, ela entrega uma recompensa simbólica ao outro. Desse modo, o engajamento vira uma forma de convivência, e não um julgamento de qualidade.
O medo do silêncio e a ansiedade social
O silêncio nas redes também comunica algo. Em muitos contextos, não curtir pode ser interpretado como frieza, distanciamento ou até rejeição. Isso acontece principalmente entre pessoas próximas, como familiares, colegas de trabalho e amigos antigos. Por consequência, a curtida aparece como ferramenta de prevenção de conflitos.
Esse efeito se intensifica quando o conteúdo envolve autoestima e exposição pessoal. Uma foto na academia, por exemplo, pode ser percebida como um pedido indireto de reconhecimento. Assim, mesmo quem não se interessa pelo tema pode curtir para evitar a sensação de que deixou o outro “no vácuo”.
O engajamento como manutenção de laços
Boa parte das relações modernas funciona em baixa intensidade. Muitas amizades sobrevivem mais por sinais periódicos do que por conversas profundas. Nesse cenário, a curtida vira uma espécie de manutenção preventiva. Ela não aprofunda o vínculo, mas impede que ele desapareça.
Além disso, as redes sociais substituíram rituais antigos de contato. Antes, alguém ligava, mandava mensagem ou visitava. Agora, muitas pessoas “mantêm presença” apenas reagindo a posts. Portanto, curtir não é só concordar. Em muitos casos, é lembrar que a relação existe.
Etiqueta digital e o “dever” de apoiar
Outro fator relevante é a etiqueta informal criada pelas próprias redes. Certos tipos de conteúdo parecem exigir apoio. Postagens sobre conquistas, transformação física, rotina de estudos e mudanças pessoais entram nesse grupo. Mesmo que o público esteja cansado do tema, ele sente que deve incentivar.
Isso acontece porque o conteúdo se apresenta como esforço. E, socialmente, esforço pede aplauso. Assim, a curtida vira um pequeno prêmio. Ao mesmo tempo, ela vira uma forma de confirmar a narrativa do outro: “você está indo bem”.
Por isso, conteúdos repetitivos continuam recebendo engajamento. O feed não recompensa apenas o interessante. Ele também recompensa o que parece merecer validação.
Quando a curtida é uma moeda de troca
Em muitos casos, a polidez digital se mistura com reciprocidade. A lógica é simples: quem curte espera ser curtido. Quem comenta espera comentário. Esse comportamento não precisa ser consciente para funcionar. Ele se estabelece como regra silenciosa de convivência online.
Por consequência, o engajamento vira uma economia de favores. A pessoa curte para manter a troca ativa. Além disso, ela curte para preservar o próprio lugar na rede, garantindo que também será lembrada quando postar algo.
Assim, a curtida deixa de ser reação espontânea. Ela se transforma em um gesto estratégico, ainda que automático.
O algoritmo incentiva a polidez
O algoritmo também participa desse processo. Plataformas priorizam conteúdo com engajamento. Portanto, quando um grupo social se curte por hábito, ele aumenta o alcance das postagens uns dos outros. Dessa forma, o sistema reforça o comportamento, porque recompensa quem participa do circuito.
Com isso, a polidez vira mecanismo de visibilidade. E, quando a visibilidade se torna valiosa, a curtida deixa de ser apenas educação. Ela passa a ser ferramenta.
O resultado: engajamento que não significa interesse
Esse fenômeno ajuda a explicar por que métricas não revelam necessariamente o que as pessoas sentem. Uma postagem pode ter centenas de curtidas e, ainda assim, ser considerada repetitiva, cansativa ou irrelevante por boa parte do público.
Ao mesmo tempo, esse tipo de engajamento cria uma ilusão perigosa. Quem publica passa a acreditar que o conteúdo agrada. E, como resultado, repete. O público, por sua vez, continua curtindo por educação. Assim, o ciclo se mantém.
Por isso, quando um estudo aponta que postagens sobre academia recebem muitas reações, o dado não prova entusiasmo. Ele pode indicar apenas polidez social e manutenção de vínculos. Em muitos casos, a curtida não significa “gostei”. Para algumas pessoas, ela significa “estou presente”.
FAQ sobre curtidas e polidez social nas redes
Por que as pessoas curtem posts repetitivos mesmo sem gostar?
Porque a curtida funciona como gesto de convivência e manutenção de laços, não apenas como aprovação do conteúdo.
Não curtir pode ser visto como falta de educação?
Em alguns grupos, sim. O silêncio pode ser interpretado como frieza, distanciamento ou rejeição.
Curtidas são sempre espontâneas?
Não. Muitas acontecem por hábito, reciprocidade e etiqueta digital, mesmo sem interesse real.
O algoritmo influencia esse comportamento?
Sim. O sistema recompensa engajamento e amplia o alcance de quem participa do circuito de curtidas.
O que significa uma curtida, afinal?
Nem sempre “gostei”. Em muitos casos, significa “eu vi”, “estou aqui” ou “quero manter contato”.
Rogério Victorino
Jornalista especializado em entretenimento. Adora filmes, séries, decora diálogos, faz imitações e curte trilhas sonoras. Se arriscou pelo turismo, estilo de vida e gastronomia.
VER PERFILISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE
Antes de continuar, esteja ciente de que o conteúdo discutido entre você e o profissional é estritamente confidencial. A Era Sideral não assume qualquer responsabilidade pela confidencialidade, segurança ou proteção do conteúdo discutido entre as partes. Ao clicar em CONTINUAR, você reconhece que tal interação é feita por sua própria conta e risco.
Aviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
Curtidas funcionam como recompensa e podem reforçar comportamento nas redes, apontam estudos em psicologia
Curtidas funcionam como recompensa social. Quando vêm de forma imprevisível, reforçam o hábito de postar e moldam comportamento online.
Narcisismo não é diagnóstico: entenda a diferença entre traço de personalidade e transtorno mental
Narcisismo pode ser traço comum de personalidade. Já o Transtorno de Personalidade Narcisista é diagnóstico clínico e não se deduz...
Estudo liga posts frequentes sobre academia a traços de narcisismo, mas não confirma transtorno mental
Estudo da Universidade de Brunel liga posts frequentes sobre academia a traços de narcisismo, mas não confirma transtorno mental.
O crepúsculo da gordura e a farmacologização da vontade: a era da tirzepatida
A ciência tenta silenciar a fome através de hormônios sintéticos, transformando a disciplina em um algoritmo químico de alta precisão.







