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O valioso tempo que escoa: uma crônica sobre o envelhecer
Olho-me no espelho e vejo um homem envelhecido. Tento contar os anos que passaram, e descubro que já não me resta muito tempo. A verdade logo se revela… Meu passado é muito maior que meu futuro.
No entanto, continuo a olhar fixamente para o espelho. Agora, a imagem refletida não é mais a do homem, mas a de um menino. Um sorriso inocente, como o de quem acabou de ganhar seu primeiro time de futebol de botão.
Ele corre para mostrar aos amigos. O grande estádio está pronto para receber as equipes de jogos de botão. A mesa, esculpida em madeira de lei, está exposta à frente do corredor da entrada do hotel.
Sinto-me leve, meus pequenos pés se movem ao redor da mesa-campo, e minhas ágeis mãos, com pequenos toques, guiam a bola de cortiça. De pé em pé, botão a botão, driblam os adversários e preparam o chute para o gol.
Desperto ao som do grito de gol. Em seguida, volto à realidade, paro novamente diante do espelho e vejo o homem cansado e pensativo, enquanto uma leve e constante torrente de pensamentos traz imagens que projetam o que resta do seu exíguo futuro.
Já não há mais tempo para lidar com a mediocridade. Evitarei reuniões onde prevalece o egotismo, com espíritos invejosos que, com palavras malévolas, tentam destruir aqueles que admiram, pois apenas cobiçam e sonham em ocupar seus lugares.
Já não tenho mais tempo para conversas intermináveis, ouvindo assuntos inúteis sobre a vida de pessoas que nem conheço. Não há mais espaço para repetir conselhos a pessoas da minha idade, que se ofendem por tão pouco, tamanha sua imaturidade.
Não há mais tempo para me esconder de pessoas que debatem sem conteúdo e defendem ideias vazias, com medo de perder suas amizades. Meu tempo tornou-se escasso para discutir superficialidades; eu busco a essência, pois minha alma tem pressa.
Quero viver ao lado de gente verdadeira, que saiba rir de seus próprios tropeços, que abraça e chama de amigo. E, se um dia me perguntarem por que mudei, responderei simplesmente:
— Apenas decidi caminhar perto de coisas e pessoas autênticas, porque a essência da vida é o amor e ele faz a vida valer a pena. Para mim, o amor basta.
Rubens Muniz Junior
Rubens de Azevedo Muniz Junior, economista, administrador de empresa, trader aposentado, 82 anos de idade, nascido em Pirajuí, é poeta, cronista, contista, romancista e amante de boa leitura. Viajou e residiu, a trabalho, fora do Brasil.
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3 comentários para “O valioso tempo que escoa: uma crônica sobre o envelhecer”
Excelente, retrata a vida de verdade!
Escrever crônica, já dizia Rubem Braga, é viver o cotidiano em seus detalhes singulares…