Quando a despedida começa a se apresentar: um conto sobre um homem e seu gato

Quando a despedida chega em silêncio, um homem e seu gato se despedem com amor, gratidão e saudade na tranquilidade à beira-mar.
Quando a despedida começa a se apresentar: um conto sobre um homem e seu gato
Foto: Canva

Esta é uma história que se passa em uma pequena cidade à beira-mar…

Seu Antônio, morador desde que nasceu, já passados mais de 75 anos, viu a pequena vila de pescadores se transformar na pequena cidade de nome Lurdes. Todos lá se conheciam, ou pelo menos os antigos moradores. Hoje, muitos dos terrenos defronte ao mar se transformaram em residência de fins de semana, férias escolares e/ou final de ano.

Lurdes, de vilarejo de pescadores com menos de 100 habitantes, se transformou em cidade quando se instalou na região uma fábrica de tecido de juta de industriais japoneses. Com eles, vieram não só uma nova expectativa de vida para os moradores, principalmente seus filhos, os mais jovens, como também um posto médico, escola, banco e, finalmente, quando atingiu um pouco mais de 2.300 habitantes, se transformou em cidade.

A cidade, atualmente, tem seu fluxo financeiro resultante das atividades comerciais que foram se desenvolvendo com a fábrica de juta, tais como fábrica de móveis, supermercados, escola particular, clínica dentária e médica, escritório – pátio da Cia. de Energia, além de outras atividades comerciais e financeiras.

Seu Antônio, assim como outros moradores antigos, já aposentados, fez da arte de pescar sua vida. Assim sustentou suas famílias e viu a tecnologia e a industrialização chegarem aos pés da vila de pescadores.

Os moradores antigos, com exceção do Sr. Antônio e mais dois vizinhos, venderam seus terrenos e casas aos “imigrantes ricos”, que construíram mansões ao pé da areia. Seu Antônio e os vizinhos João Pedro e Salvador mantiveram suas casas, simples, mas com muito verde nativo.

Nos terrenos e áreas de suas propriedades, mantinham pés de abiu, jaca, mamão, laranja, mixirica, banana, limão, e outras não nativas, como romã, carambola… Além das visitas constantes de passarinhada das florestas da Serra do Mar e, não tão constantes como no passado, a visita de alguns bichos de quatro patas, como tamanduá, gato do mato, macacos, sagui, gambás, jaguatirica, onça parda, onça pintada, veado e anta.

Seu Antônio, que ficara viúvo há 8 anos, morava sozinho. Seus dois filhos, Arnaldo e Jaciara, saíram cedo de casa, foram para a grande cidade, onde estudaram e se casaram. Vinham sempre visitar o pai e passavam férias com os filhos na cidade praiana.

Seu Antônio não se importava de morar sozinho, pois tinha os vizinhos e amigos, além de três gatos chamados Careca, Branquinha e mais dois cachorros: a preta, gorda e rabugenta Luna, e o Guardião do Castelo Nick, um Yorkshire, presente de sua filha Jaciara.

A vida de Seu Antônio ia seguindo, em um ritual diário digno de um nobre e aposentado pescador. Acordava com as galinhas, como costumava dizer, fazia o seu café, comia frutas, tomava sucos naturais, dava de comer para os gatos e cachorros, e depois seguia para o galinheiro alimentar as galinhas, galos, pintinhos e o casal de patos.

Em seguida, juntamente com o Nick e a Luna, saia para caminhar na praia. Eram 3 km de areia limpa, branca, e um mar de águas azuis com ondas de espuma branca a quebrarem na silenciosa areia, que mais lembrava os filmes do Havaí.

Na volta, sempre parava na casa dos compadres e vizinhos João Pedro e Salvador, batiam um papo, tomavam café e depois retornava para sua casa. Mais tarde, preparava o almoço e, logo em seguida, após lavar os pratos e utensílios de cozinha, seguia para o quarto ou para a rede na varanda e tirava uma soneca.

Ao seu lado, no chão, os guardas de prontidão, Nick e Luna; na cama ou na rede, debruçadas sob seus pés ou braços, Chiquita e Careca, companheiras, amigas, protetoras, sempre alertas a qualquer mudança ou pressentimento de ondas, vibrações negativas. Seu Antônio, rindo, dizia: “Nem o Satanás se aproxima.”

E assim a vida ia levando…

Sem sobressaltos, sem grandes ruídos, como o mar em dias de maré mansa, quando as ondas chegam à areia apenas para cumprir seu destino e voltar.

Mas há dias — Seu Antônio sabia — em que o silêncio muda de peso.

Não era tristeza, não era medo. Era um pressentimento leve, quase imperceptível, como o vento que antecede a mudança do tempo. Um aviso que não grita, apenas sussurra.

Naquela manhã, ao se levantar ainda antes do sol, percebeu que algo estava fora do compasso. Careca não veio ao seu encontro como sempre fazia. Não miou. Não roçou nas pernas dele pedindo comida. Ficou deitada, encolhida, com os olhos grandes demais para um corpo que parecia menor a cada dia.

Seu Antônio ajoelhou-se devagar, como quem se aproxima de algo sagrado.

— Bom dia, minha velha companheira… — disse, com a voz baixa, para não assustar o que já parecia frágil demais.

Careca ergueu a cabeça com esforço. Não havia dor nos olhos, apenas um cansaço profundo, antigo, desses que não se resolvem com descanso. Ele passou a mão em seu dorso ralo, sentindo os ossinhos delicados sob a pele. Aquilo lhe apertou o peito.

Ele já tinha visto aquele olhar antes.

Viu nos peixes quando, presos à rede, deixavam de lutar.

Viu nos pássaros feridos que pousavam no quintal apenas para descansar… e nunca mais voarem.

Viu nos olhos de sua mulher, nos últimos dias, quando o corpo ainda estava ali, mas a alma já se preparava para partir.

Seu Antônio sentou-se no chão, encostado na parede, e ficou ali, em silêncio, com Careca aninhada junto ao seu peito. Branquinha observava de longe, inquieta. Luna e Nick, estranhamente quietos, deitaram-se próximos, como se soubessem que aquele não era um dia comum.

— Quando a despedida começa a se apresentar… — murmurou ele, mais para si do que para os outros — …ela não avisa com palavras. Ela chega em forma de quietude.

Do lado de fora, o mar seguia seu ritual eterno. As espumas brancas se desfaziam na areia, chorando um lamento antigo, repetido há séculos, sem nunca se esgotar.

Seu Antônio fechou os olhos por um instante.

Não pediu que Careca ficasse. Não pediu milagre. Não barganhou com Deus.

Apenas agradeceu.

Por tê-la encontrado na rua. Por tê-la trazido para casa. Por cada manhã em que ela dormiu aos seus pés, guardando seus sonhos como quem guarda um tesouro.

Naquele momento, ele entendeu: “Amar também é saber reconhecer quando o amor precisa aprender a soltar.”

E ficou ali. Inteiro. Presente. Enquanto a despedida, lenta e respeitosa, começava a se anunciar.

O relógio marcava o fim da tarde, mas dentro de Seu Antônio o tempo havia parado.

O peito ardia como se guardasse um incêndio antigo, desses que não consomem, apenas doem. O choro não vinha em explosão; vinha contido, baixo, quase envergonhado, como se até as lágrimas soubessem que aquele momento exigia respeito.

Careca respirava devagar.

Cada movimento do seu pequeno corpo parecia um pedido silencioso de descanso. Não havia medo. Não havia revolta. Apenas a serenidade de quem já caminhou o que precisava caminhar.

Seu Antônio aproximou o rosto do dela.

— Está tudo bem… — sussurrou, mais para convencer a si mesmo do que a ela. — Pode descansar. Eu fico aqui.

As palavras saíram quebradas, atravessando um soluço que ele tentou abafar no fundo do peito. Mas o peito não obedeceu. O coração, quando ama, não aceita ordens.

Ele se lembrou de quando a encontrou. Magrela. Assustada. Com os olhos maiores que o mundo.

Lembrou-se do primeiro prato de comida recusado, do primeiro carinho aceito, da primeira noite em que ela subiu na cama e decidiu que aquele era o seu lugar. Lembrou-se de como, desde então, nunca mais dormira sozinho — mesmo quando a casa parecia vazia demais.

— Você nunca foi só um gato… — murmurou. — Foi casa. Foi companhia. Foi vigília.

Lá fora, o céu começava a mudar de cor. O azul dava lugar ao laranja, o laranja ao rosa, e depois ao cinza suave do entardecer. O mar, cúmplice antigo, seguia chorando suas espumas brancas, como se soubesse exatamente o que acontecia naquela varanda.

Careca mexeu levemente a cabeça.

Seu Antônio sentiu.

Não foi um gesto qualquer. Foi um reconhecimento. Um último “estou aqui”.

Ele encostou a testa na dela.

— Obrigado… — disse, com a voz quase inexistente. — Obrigado por ter ficado.

O choro finalmente veio. Não alto. Não desesperado. Veio como vem a chuva fina: contínua, profunda, impossível de conter.

E naquele choro havia saudade antes mesmo da partida. Havia gratidão misturada à dor. Havia amor em estado puro.

Seu Antônio entendeu, ali, que algumas despedidas não precisam acontecer de fato para começarem a doer.

Às vezes, elas começam quando o amor percebe que precisa ser forte o suficiente para não segurar.

Ele permaneceu ali, com Careca nos braços, enquanto o dia se recolhia.

E, mesmo sem dizer nada, o coração dele prometeu:

— Você não vai partir sozinha.

Quando a despedida aprende a ficar

A noite chegou devagar, como quem sabe que não deve assustar.

A lua surgiu tímida, refletindo-se no mar que continuava a chorar suas espumas brancas, agora mais suaves, como um lamento antigo que já não precisa de palavras. A varanda estava em penumbra, e o mundo parecia ter diminuído de tamanho para caber apenas naquele instante.

Careca respirou fundo. Não foi um suspiro de dor. Foi um suspiro de alívio.

Seu Antônio sentiu no mesmo segundo em que aconteceu. Não houve sobressalto. Não houve desespero. Apenas um silêncio diferente — denso, absoluto, respeitoso. O pequeno corpo relaxou nos seus braços como quem finalmente encontra repouso depois de uma longa vigília.

Ele ficou imóvel. Não por não saber o que fazer, mas porque o amor, quando percebe a eternidade, se ajoelha por dentro.

— Vai, minha pequena… — disse, com a voz embargada, mas firme. — Vai tranquila. A casa fica. O amor fica. Eu fico.

As lágrimas caíam sem pressa. Já não queimavam. Agora eram mornas, como chuva que lava a terra depois da seca. Ele beijou a testa dela uma última vez, sentindo ainda o perfume que sempre reconheceria em qualquer parte do universo.

Luna se aproximou em silêncio. Nick sentou-se ao lado, atento, como se entendesse que ali não cabia latido, apenas presença.

Os anjos do mar — aqueles mesmos que protegiam as ondas — pareciam ter vindo buscar uma de suas irmãs mais antigas.

Seu Antônio levantou-se devagar, levou Careca até o lugar onde ela mais gostava de dormir, ajeitou a manta com cuidado e ficou ali, olhando. Não pediu que ela ficasse. Não pediu que voltasse. O amor verdadeiro não prende — acompanha.

Lá fora, o mar seguiu. E pela primeira vez, ele não pareceu chorar.

Pareceu guardar.

Seu Antônio sentou-se na cadeira da varanda. O peito ainda doía, mas agora a dor tinha nome: saudade. E saudade, ele sabia, era o preço justo de quem teve um amor inteiro.

— Até já… — sussurrou. — A gente se encontra de novo.

O vento passou leve, quase um carinho. E, por um instante muito breve, ele teve certeza:

Careca não partira.

Apenas mudara de lugar.

Rubens Muniz Junior

Rubens de Azevedo Muniz Junior, economista, administrador de empresa, trader aposentado, 82 anos de idade, nascido em Pirajuí, é poeta, cronista, contista, romancista e amante de boa leitura. Viajou e residiu, a trabalho, fora do Brasil.

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